sábado, 23 de abril de 2022

"entre mão e bala, ser, seres, humanos ou não?" - Fernando Rios

 






entre mão e bala,


ser, seres,


humanos ou não?



 

I


bala e mão


embalam e manejam


atraem e rejeitam


corpos


doentes...


ou sãos...



 

corpos todos portadores


de seres


para o bem ou para o mal


chamados humanos



 

bala e mão


trazem bons sabores


e péssimos horrores



 

II


tirar bala e mão do dicionário


requer exímio aprendizado



 

entre as ciências principais


quem mais se apresenta...


é a política


sobretudo, de corpo a corpo



 

ela


afasta, arrasa


ou


atrai, aconchega



 

porque bala e mão


fora do dicionário


tanto multiplicam vítimas e mortos e feridos


quanto procriam aliados e amados e queridos



 

III


que palavra


fere mais que bala



 

que palavra


adoça mais que bala



 

que palavra


agride mais que mão



 

que palavra


afaga mais que mão



 

IV


a bala que penetra


deixa um rastro oco, amargo


preenchido com sangue


do próprio corpo


ser humano em molho pardo



 

a mão que esbraveja


deixa um rastro de furacão


que faz cambalear o corpo


perdido em busca de um norte


ser humano em tempestade



 

V


uma bala que escorre na garganta


deixa um caminho doce


que se preenche em memórias


feitas em mil infâncias alfenins



 

entranhas de ser humano em delícia



 

a mão que encontra um rosto


e desenha um gesto um toque uma ternura


faz seu próprio caminho sereno eterno


feito de preciosas pedras pétalas perfumes



 

estranho ser humano gentilmente gente



 

VI


as palavras estão prontas


ávidas aptas aladas


e se repartem


entre bala e mão


entre mão e bala



 

palavra bala palavra


bala palavra bala


mão palavra mão


palavra mão palavra



 

VII


dedos e gatilhos


se entendem e desentendem


na falta de palavras


e/ou talvez com elas



 

e que palavras aladas


tanto atingem faces


quanto acariciam rostos



 

como pontas de dedos adagas


como pontas de dedos plumas



 

VIII


não basta decorar o dicionário



 

vale mais desenhar gestos amenos


e polvilhar hidromel na boca


e escorrer e aquecer momentos pelo corpo


e preparar um intenso abraço


e sentir o sabor do cálido cândido sôfrego beijo



 

e se embalar e se manejar


chagalmente klimtement


barcos corpos velas ventos árvores


asas sopros ondas voos


envoltos palavrosamente em dicionários


cuidadosamente em palavras ímãs


e então


conviver


calidamente


quentemente


intensamente



 

coloridos amantes


fraternos amigos


fogo água terra ar



 

humanas mentes


de chão e vento e mar



 

IX


e para construir


utopicamente



 

em qualquer horizonte



 

algum lugar qualquer



 

de seres


ditos humanos


dos bons e dos melhores



 

há que sempre resgatar


e desejar (e)ternamente


a mão que embala


a bala que saliva



 

 

 

 

Fernando Rios

 




 

 

 

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