sábado, 11 de julho de 2026

"Perfumista" - Raquel Naveira

 



Perfumista



Emocionei-me quando ele disse:


“De todos os perfumes,


Prefiro o seu.”



Eu me perfumei


Em segredo,


Com intensidade,


Para esse momento;


Usei essências florais,


Rosas, jasmins,


Notas de baunilha,


O perfume penetrou na minha pele,


No meu coração,


Fixou-se no fundo,


Deixando no vento


O rastro da recordação.



“– Também amo seu cheiro”, eu disse,


De tabaco seco,


Noz-moscada e canela,


De madeiras vindas de distantes ilhas


Para o sonho dessa hora,


Toda azul,


Desse baile de aromas,


No castelo de Versalhes


Ou num jardim


À beira do Nilo.



Nunca houve ciúme,


De todos os perfumes


Espalhados pelos ares,


Trazidos a lume,


Ele prefere o meu.



Raquel Naveira

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Música em cena


 

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Reflexões sobre o tempo presente


 

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Nos caminhos da arte

 














HUMOR





Favoritos do diretor: Van Der






Fé no homem





As botas barulhentas


Um general aposentado do Exército se muda para um novo apartamento após deixar o serviço militar. Nas semanas seguintes, seus novos vizinhos perceberam que, nos fins de semana, ele chegava em casa às 2h da manhã, muito bêbado, tirava a bota esquerda e batia-a com força no chão, tirava a bota direita e batia-a com ainda mais força, e então ia dormir. Como o barulho estrondoso das botas era suficiente para acordar quase todos ao redor, e considerando que se tratava de um condomínio residencial, os vizinhos decidiram ir até a casa dele e confrontá-lo sobre isso certa manhã.

"Senhor General, agradecemos pelo seu serviço ao nosso país e damos-lhe as boas-vindas ao nosso condomínio."

"Obrigado."

"Senhor, sabemos que servir ao país por tanto tempo pode ser muito desgastante, e queremos que o senhor aproveite sua aposentadoria..." "Certo?" "Mas, senhor, por favor, poderia, por gentileza, parar de bater as botas no chão no meio da noite quando chega em casa nos fins de semana? Está nos acordando, a nós e às nossas crianças."

"Ah! Eu não sabia disso. Desculpem por ter acordado todos vocês assim, que burrice a minha, não vai acontecer de novo."

"Muito obrigado, senhor."

No fim de semana seguinte, o General volta para casa bêbado e senta na cama. Ele tira a bota esquerda e a joga no chão. Tira a bota direita e... "Espere um minuto... era disso que eles estavam falando, não era?", diz para si mesmo em seu torpor alcoólico. Ele coloca delicadamente a bota direita ao lado da esquerda e vai para a cama. Uma hora depois, o General acorda com a campainha tocando sem parar e batidas fortes na porta. Ele se levanta, caminha até a porta e a abre, encontrando um grupo de vizinhos do lado de fora, de pijama...

"SENHOR! O senhor pode, por favor, bater a outra bota logo para que todos possamos dormir em paz?!"



Mouzar Benedito - Cultura inútil | Empreendedorismo e as bets: a alegria de ser trouxa e enganado!

sábado, 4 de julho de 2026

“Intelectuais Apolíticos” - Otto René Castillo

 



Intelectuais Apolíticos


Um dia,


os intelectuais


apolíticos


de meu país


serão interrogados


pelo homem


comum


de nosso povo.



Perguntarão a eles


sobre o que fizeram


quando


a pátria se apagava


lentamente,


como uma fogueira doce,


pequena e solitária.



Não serão interrogados


sobre suas roupas,


nem sobre suas longas


siestas


depois do lanche da tarde,


tampouco sobre seus estéreis


combates com o nada,


nem sobre sua ontológica


maneira


de chegar às moedas.


Não serão interrogados


sobre a mitologia grega,


nem sobre o asco


que sentiram de si,


quando alguém, ao fundo,


se dispunha a morrer covardemente.


Nada será perguntado


sobre suas justificativas


absurdas,


crescidas na sombra


de uma mentira rotunda.


II


Esse dia verão


os homens comuns.


Que nunca couberam


nos livros e versos


dos intelectuais apolíticos,


mas que chegavam todos os dias


a lhes deixar o leite e o pão,


os ovos e as tortilhas,


os que costuravam suas roupas,


os que conduziam os carros,


os que cuidavam de seus cachorros e jardins,


e trabalhavam para eles,


e perguntarão,


“O que você fez quando os pobres


sofriam, e se queimavam com eles,


gravemente, a ternura e a vida?”


III


Intelectuais apolíticos


de meu doce país,


não poderão responder nada.


Abutres de silêncio devorarão


suas entranhas.


Roerão suas almas


sua própria miséria.


E ficarão calados,


com vergonha de si mesmos…



Otto René Castillo* (1934-1967)


*Poeta revolucionário guatemalteco escreveu este poema no início de 1965, dois anos antes de ser assassinado pelos militares guatemaltecos.

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