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sábado, 12 de julho de 2014

Segregar é preciso? Uma reflexão sobre o vagão rosa

Revista Fórum

A existência de um vagão exclusivo para mulheres no transporte público não é um debate de hoje no Brasil, desde que o primeiro foi implementado no Rio de Janeiro a eficácia desta medida ao combate e prevenção a violência machista dentro dos transportes de massa é problematizada.
Na quinta-feira passada (4), foi aprovada pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) a Lei que reserva vagões específicos para mulheres. Apesar de um setor do movimento feminista compreender isso como vitória eu tenho lá meus questionamentos sobre a real eficácia da medida para o combate a violência machista como um todo, seja no estado de São Paulo, seja em outros estados brasileiros. Um dado importante desta votação é que apenas homens foram favoráveis a medida. 
A primeira questão a ser considerada é o fato de que em São Paulo somos 58% das usuárias de transporte público, ou seja, mais da metade da população que encaram as latas de sardinha diariamente. Aí está a primeira problemática: como garantir uma política de cotas de vagão quando o sistema metroferroviário do estado já está em total colapso?
Para ler o texto completo de Luka Franca clique aqui
Leia também o texto "Cinco alternativas ao vagão para mulheres" de Marília Moschkovich ckicando aqui

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Para uma Estética das Mulheres Erradas

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Eu tenho os pés grandes. Sou bem mais alta do que a média das mulheres e do que boa parte dos homens em nosso país. Não sou gorda, mas estou bem mais longe de ser magra. Usei óculos durante toda minha vida adulta, até bem pouco tempo atrás. Tenho os quadris (bem) largos. As coxas gorduchas. Um pouco de papo. Pelos em tom escuro. Estrias. Vasinhos nas pernas. Cicatrizes.
Sempre tive – e ainda tenho – dificuldades em encontrar sapatos que me sirvam. Coloridos, diferentinhos, com pequenos charmes? Ainda menos. Roupas também, embora sapatos sejam mais fáceis. Sutiãs perfeitos? Nem sonhando. Sempre destoei, em termos de corpo, tamanho. Sempre me senti um peixe fora d’água (ou uma baleia – e nada contra as baleias, aliás, que lideram minha lista de animais favoritos junto aos elefantes, claro; questão de empatia).
Para ler o texto completo de Marília Moschovich clique aqui

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Frear exploração infantil, sem atingir prostitut@s

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Entre os muitos motivos utilizados para se criticar a realização da Copa do Mundo no Brasil, está o tal do “turismo sexual”. Mas será que ele é mesmo um problema?
Há alguns meses, a marca de artigos esportivos Adidas retirou do mercado uma camiseta “comemorativa” da Copa do Mundo da FIFA 2014, após uma série de protestos de consumidores que enxergaram nas estampas incentivo ao turismo sexual. As imagens associavam o Brasil a partes objetificadas de corpos femininos, sugerindo que a viagem ao Brasil valeria a pena pelo sexo com as brasileiras. Ao mesmo tempo, nas manifestações organizadas por diferentes grupos em protesto a várias atitudes dos governos estaduais e do governo federal para que a Copa seja realizada, veem-se com alguma frequência cartazes “contra o turismo sexual”.
Para ler o texto completo de Marília Moschovich clique aqui

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O feminismo de esquerda e o liberal

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Talvez essa seja uma das perguntas que mais escuto, quando trabalho com pessoas que, embora estejam interessadas no movimento feminista, ainda estão começando a explorar o assunto. Talvez porque “esquerda” seja uma classificação que assuste muita gente(comunista! come criancinhas!); talvez porque uma das principais raízes do feminismo está, de fato, na esquerda. Embora a relação entre feminismo e esquerda seja às vezes um tanto conflituosa, ela existe. Apenas não necessariamente.
Costumo dizer que o feminismo tem duas raízes “primárias”, por assim dizer. Ambas vêm de meados a final do século XIX e início do século XX – até então, não havia um “movimento feminista” que reivindicasse coletivamente as mulheres como sujeito político com pautas específicas, apenas o que dizemos hoje serem “proto-feministas” (comoCleópatraHypatia, e intelectuais pioneiras como Mary Woolstonecraft).
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quarta-feira, 7 de maio de 2014

Que liga feminismo à legalização das drogas?

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No sábado, 26 de abril, a “Marcha da Maconha” ocupou as ruas da região central de São Paulo reivindicando a legalização da cannabis e questionando a chamada “guerra às drogas”. No ano passado, o Uruguai se tornou o primeiro país da América Latina a descriminalizar o uso da planta. Nos EUA, são alguns os estados em que seu uso já é permitido em certos casos. A Holanda é conhecida internacionalmente pela tolerância oficial ao entorpecente.
Se retomarmos historicamente a correlação de forças que resultou na proibição da maconha nas décadas de 1920 e 1930 (primeiro nos EUA e, em seguida, com a pressão política bem aplicada, no resto do mundo), veremos que a decisão é altamente controversa, além de recente. A legalização da maconha é claramente um tema em disputa.
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domingo, 27 de abril de 2014

Eleições-2014: é possível uma pauta feminista?

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Então, parece que está dada a largada: a declaração do presidenciável Eduardo Campos sobre o aborto inaugura o show de horrores que assistiremos (de camarote, com bebida que pisca) durante as eleições de 2014. Se as questões de direitos humanos, em geral, costumam ser rifadas na lógica insana da disputa eleitoral, os assuntos especificamente ligados aos direitos das mulheres parecem ter cacife zero. Desde que temos figuras femininas com força na corrida, em 2010, então, isso tem sido uma constante. O fato de termos uma presidenta mulher, pelo jeito, tampouco ameniza esses ataques.
Do ponto de vista da militância feminista, o governo Dilma tem sido uma grande decepção no que tange os direitos sexuais e reprodutivos mas também em relação às políticas para mulheres. A decepção vem por uma série de pressões feitas pelo gabinete da Presidência respectiva secretaria de Politicas para as Mulheres (SPM), por alguns programas que contradizem princípios básicos do feminismo (como o tal Cegonha-qualquer-coisa) mas também pela absoluta falta de diálogo com a militância que desempenhou um papel importante na eleição da presidenta. Ao mesmo tempo em que, durante a campanha de 2010, percebemos que enfrentaríamos uma batalha após as eleições (sobretudo quando a fatídica questão sobre o aborto foi pautada), imaginamos que haveria pelo menos condições de disputar esses pontos. Na maior parte das vezes, nos últimos quatro anos, não houve. O fechamento do debate é grave e decepciona profundamente.
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quinta-feira, 17 de abril de 2014

Assédio: por que as explicações fáceis não satisfazem

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No meio de tanto debate sobre o assédio que as mulheres sofrem diariamente em espaços públicos – metrô, trens, praças, pontos de ônibus, na rua, entre outros –, uma questão tem passado batida. Curiosamente, é a única questão que nos permitirá pensar em soluções eficazes para esse tipo de problema: de onde vem o assédio? Por que o assédio acontece?
Nos comentários pela internet, a primeira resposta que encontramos trata o assédio como um problema individual do homem que assedia. “É um doente”, ou “é louco”, são as considerações mais comuns. Pois vejam, se esse fosse um problema individual, uma doença, um problema mental, será mesmo que teríamos tantos casos? Basta escutar as mulheres: dificilmente encontramos mulheres que nunca tenham sofrido nenhum tipo de assédio em nenhum tipo de espaço público. Se assediar é uma doença, então estamos diante de uma pandemia e o mundo está mesmo perdido. Não haveria solução, exceto internar em manicômios cada um dos homens que assedia – e provavelmente sobrariam livres muito poucos pra contar a história.
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domingo, 30 de março de 2014

Nariz fino de Anitta; axilas "descoladas" de Madonna

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A semana que se encerrou ontem foi quentíssima para divergências, debates e confusões em torno de padrões estéticos. No começo dela, Madonna publicou uma foto em seu instagram onde mostrava axilas peludas. No finzinho, o Fantástico entrevistou a cantora Anitta sobre suas mais recentes cirurgias plásticas. Em comum e no centro da questão estão padrões estéticos. Afinal de contas: a escolha de Anitta é pior do que aquela feita por Madonna? É possível um olhar feminista que não culpabilize nem condene a escolha individual nesses dois casos?
[Parênteses fundamentais aqui: jamais teríamos essa discussão sobre a decisão de Michel Teló se depilar ou ficar peludo, ou sobre as plásticas do John Travolta, que fique claro. Esse ponto específico da questão já é suficiente para um outro texto inteiro; desta vez decidi me concentrar sobre outro aspecto da coisa. Fecha parênteses.]
Nenhuma discussão que compare essas duas mulheres sem atenção às especificidades de cada uma pode ser produtiva. Anitta e Madonna, além de consoantes repetidas na grafia da última sílaba, têm pouco em comum e partem de lugares bem diferentes.
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sexta-feira, 21 de março de 2014

Machismo, a opressão primeira

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O machismo é uma ideia.
A ideia machista baseia-se numa classificação do mundo em objetos, comportamentos, trejeitos, desejos e ideias “masculinos” e “femininos”. O que torna essas coisas masculinas ou femininas não é, ao contrário do que se diz por aí, estarem ligadas a grupos de “homens” ou “mulheres”, respectivamente. Uma coisa não é feminina porque é feita por mulheres, nem masculina porque é feita por homens. A relação vem na mão inversa: uma coisa é feita por mulheres porque é feminina e “mulher” é uma identidade que se baseia num equilíbrio não muito exato, nem muito rígido entre essa “feminilidade” e “masculinidade” (entre outras coisinhas mais). O mesmo no caso dos homens. Uma mulher pode ser vista como “menos mulher” quando faz algo não-feminino ou “mais masculino”, e um homem pode ser visto como “menos masculino” quando faz algo não-masculino ou “mais feminino”. Uma coisa classificada como “feminina” ou “masculina”, porém, não passa a ser classificada de outra maneira quando alguém do gênero “oposto” a pratica. A ideia machista é, essencialmente, que nesse jogo de masculinidades e feminilidades, não importa o contexto, uma relação de poder rege sempre a hierarquização das coisas: a primazia da masculinidade sobre a feminilidade. A masculinidade mais “errada” sempre estará mais certa do que a feminilidade mais “certa”.
O machismo é também uma história. Longa.
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segunda-feira, 17 de março de 2014

“É feminista, mas usa salto alto e faz depilação”

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Não é segredo para vocês que sou feminista. Nem que tenho várias amigas que também são feministas (e outras que agem e pensam como feministas mas não reivindicam para si o rótulo). No dia-a-dia e na militância papeamos, agimos, refletimos para tentar desconstruir um sistema que está colocado em nossa cultura há muitos séculos: o machismo.
No entanto, nenhuma de nós é um ser humano isolado. Todas as feministas — como as mulheres não-feministas e os homens — foram educadas dentro desse sistema. A própria identidade de “mulher” que muitas vezes nos une (e que configura o sujeito político de nossa causa) está baseada no reconhecimento de masculinidades e feminilidades que são o bojo desse sistema.
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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Quem rotula nossa sexualidade?

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Ellen Page, que refletiu sobre dificuldade em “sair do armário”

Na sexta-feira a atriz Ellen Page se assumiu lésbica em um discurso público pela primeira vez. Entre tantas coisas lindas que disse, refletiu sobre a dificuldade em “sair do armário” (leia o discurso completo aqui). Quando compartilhei a informação com outras pessoas, muita gente disse coisas do tipo “eu já sabia”. Assim como muita gente usa frequentemente o termo “gaydar” (querendo dizer que haveria uma espécie de radar gay, que permite algumas pessoas identificarem mais facilmente quem é gay ou não). Esses comentários não vieram de pessoas homofóbicas, conservadoras, ausentes da discussão sobre os direitos e a condição LGBT num mundo heteronormativo. Pelo contrário, vieram de muit@s companheir@s de luta. Por isso decidi usar minha coluna de hoje como um apelo e lhes dizer: parem. Apenas parem.
Enquanto mulher bissexual, esse tipo de classificação me parece extremamente arbitrária. Por vários motivos, mas principalmente porque se baseia nos mesmos estereótipos que autorizam violência simbólica e física contra a população LGBT, e porque é autoritário ao querer definir para um indivíduo algo que só pode ser definido por ele ou ela mesm@: sua identidade sexual.
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Existe, então, um “novo” feminismo?

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Escrevi no ano passado uma retrospectiva celebrando o lado bom de o feminismo estar tão “em voga”, aparecendo na mídia e em discussões de diversos círculos (leia aqui). Na semana que passou, a revista Época online publicou uma reportagem com personagens do que chamaram de “novo feminismo”, muitas delas conhecidas na internet como Cynthia Semíramis e Lola Aronovich (leia aqui). Frequentemente recebo perguntas, via redes sociais, de pessoas querendo saber se essa seria uma “nova onda” do feminismo. Será que estamos diante de um feminismo diferente do que vinha existindo até agora?
Em seu perfil nas redes sociais, a jornalista e mestra em estudos de gênero Marjorie Rodrigues conta que, durante sua pesquisa de conclusão de curso, analisou 70 matérias sobre o feminismo publicadas em grandes veículos de comunicação no início dos anos 2000. Segundo ela, todas promovem essa mesma visão, de que estaríamos diante de um novo feminismo.
O problema desse tipo de discurso é que ele apaga a luta feminista que, a bem da verdade, nunca parou, nem deixou de existir. O feminismo se mantém ativo desde o século XX, e conquistou uma série de importantes mudanças em diversos países, como o direito ao divórcio, o direito das mulheres à herança e propriedade de terras, direito e acesso ao mesmo sistema educacional oferecido aos homens, planejamento familiar e educação sexual, entre outras. Nesse tempo todo, é de se imaginar que o pensamento feministatambém tenha se transformado, junto com a sociedade. É por esse motivo que falamos em “primeira onda”, “segunda onda” e “terceira onda” do feminismo.
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domingo, 2 de fevereiro de 2014

Quando o feminismo praticou a transfobia

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Quem é a mulher?
A questão parece boba, a princípio. Mas é justamente quando paramos pra pensar nas categorias mais óbvias do nosso entendimento do mundo que conseguimos enxergar os mecanismos de divisão, segregação e opressão da sociedade em que vivemos. “Mulher” é uma dessas categorias: tão óbvia, a princípio, mas que causa tanto sofrimento.
Quando Simone de Beauvoir disse que ninguém nasce mulher, era isso mesmo que ela estava querendo dizer: somos ensinadas a sermos mulheres. Judith Butler, cinquenta anos depois, atribui à filósofa francesa o embrião da ideia de gênero. Somos homens e mulheres conforme nos construímos como homens e mulheres. Nos construimos homens e mulheres conforme essas categorias são entendidas pela sociedade e pela cultura em que vivemos. Assim, nos identificamos como homens e mulheres dentro de um leque de símbolos, códigos, corporalidades, comportamentos e práticas atribuídos a cada uma dessas categorias.
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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Manual para resistir ao machismo em 2014

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Para muita gente o ano engrena de verdade esta semana. Quem volta ao trabalho sente a rotina de novo, quem voltou na semana passada já começa a acostumar. O número de piadas sobre a quantidade de eventos públicos e políticos importantes neste ano revela que brasileiros e brasileiras já perceberam algo diferente. Além disso, as manifestações políticas de meados de 2013 não deixam dúvida: a resposta da população a esses eventos também pode ser outra. Diante de tanto auê, é preciso também um olhar atento. Temos pela frente um ano cheio de oportunidades para fortes e nojentos machismos, assim como a chance de combatê-los.
Em 14 de janeiro, começou o Big Brother Brasil. Claro, isso ocorre todo ano, há 14 anos. E todo ano é um show de machismo. No programa, obviamente, mas sobretudo nos comentários cotidianos sobre as participantes mulheres. É também no cotidiano que podemos agir contra esse machismo. Questionar as opiniões senso-comum sobre “aquela periguete”, recusar a graça de certas piadinhas ou simplesmente emitir opiniões não-machistas sobre o programa e os participantes são algumas estratégias para lidar com a situação.
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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A arrogância dos ignorantes virtuais

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Imaginem a seguinte cena: uma pessoa que se formou, digamos, em administração de empresas, mas já foi ao médico muitas vezes na vida. Numa mesa de debate, à sua frente, médicos e agentes de saúde pública discutem a forma como certo vírus é transmitido para populações distintas. O administrador se levanta e, gentilmente, faz uma colocação:
- Os senhores me perdoem, não sou médico, claro, mas também não concordo com isso que estão dizendo.
Os médicos e agentes se entreolham e pergunta ao administrador com o que ele não concorda.
- Ora, está claro pra mim que o vírus é transmitido mais frequentemente para populações brancas. Eu sou branco e conheço muitas pessoas brancas, e várias delas tiveram esse vírus.
Os números apresentados pelos agentes de saúde pública nos cinco minutos anteriores à colocação do administrador mostram o oposto: devido a certas condições de moradia em comunidades negras, o tal vírus era mesmo mais frequente entre pessoas negras. Os agentes pacientemente explicam os números novamente ao administrador, que se levanta e, saindo da sala, grita:
- Ditadores! Vocês não sabem dialogar! Vocês só querem ouvir quem concorda com vocês!
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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Consciência negra, para feministas brancas

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Desde cedo entendi o que era o racismo. Filho de uma mãe um tanto racista, numa família racista de negros, mulatos e descendentes de espanhóis, meu pai — de pele bem branca, olhos azuis e cabelo bem cacheadinho — fazia questão de pontuar que todos eram iguais e se horrorizava com o racismo. Minha mãe, nascida de uma mistura de europeus diversos e indígenas, sempre reforçava atitudes anti-racistas e criticava abertamente indivíduos e comportamentos discriminatórios. Quando comecei a me envolver em movimentos sociais, na adolescência, descobri o movimento negro e suas mais do que legítimas reivindicações. Só recentemente, porém, depois de muitos anos de militância, compreendi que talvez meu papel principal, nessa luta, seja mais óbvio e muito mais difícil do que eu imaginava: me reconhecer branca.
Quando nascemos, nós, pessoas de pele e fenótipo socialmente lido como “brancos” (doravante aqui denominados apenas “brancos”, pra facilitar a leitura) somos ensinados que existem pessoas negras. Somos ensinados que têm a pele diferente da nossa. Em todas as formas de transmissão de cultura — escola, televisão, conversas em família, entre outros — a cor da nossa pele nunca é tratada como uma questão. É como se não tivéssemos cor. Nesse pensamento está baseada a expressão racista “pessoa de cor”, que pressupõe que nós brancos e brancas não temos cor.
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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O machismo sutil de quem nos cultua

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Recebi recentemente algumas críticas, ao aproximar a cultura de estupro das ideias um tanto filóginas – a princípio – de autores conhecidos do atual jornalismo brasileiro. A filoginia pode parecer contrária ao machismo, uma vez que coloca as mulheres como objeto de admiração e amor. Se pensarmos um tiquinho, porém, é possível sacar de que maneira a filoginia pode ser absolutamente machista, e como o pensamento do machismo filógino compartilha as ideias mais básicas do que chamamos de “cultura do estupro”.
Vamos pensar por etapas, compreendendo essas definições todas. Vejam, o machismo é uma maneira de pensar que coloca os homens como detentores do poder sobre as mulheres. Até aí, imagino que não seja lá muito difícil entender, certo? Pois então; a filoginia seria um grande amor generalizado pelas mulheres. Vocês já devem ter lido textos como este, de Xico Sá, e este, de André Forastieri, que exaltam qualidades das mulheres, nos elogiam e nos colocam numa posição quase de “seres sagrados” – como são as vacas, para os hindus.
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quinta-feira, 9 de maio de 2013

Potentia, para mulheres que não se auto-sabotam

Foi quando uma amiga argentina me trouxe o problema que prestei, pela primeira vez, alguma atenção nele. Angustiada, ela vivia um conflito entre, ao fim da graduação, optar pela carreira acadêmica ou não. Admirava a orientadora e queria ser como ela. Ao mesmo tempo, percebia que a orientadora não tinha filhos e nem era casada, coisa que ela também desejava viver nos anos seguintes. Eu nunca havia pensado no assunto. Tanto minha orientadora, quanto minha mãe, tinham carreiras brilhantes e, ainda por cima, filhos (no caso de minha mãe, três, inclusive).
Uma vez atenta para a questão, porém, foi fácil – facílimo – ser tomada por ela. Eu, que não tinha motivo algum pra me angustiar com o assunto (em termos dos exemplos de mulheres que eu conhecia e admirava), passei a perder o sono. Transformei a pergunta em pesquisa de mestrado e me dediquei ao tema por três anos, refletindo sobre desigualdades de gênero na carreira acadêmica brasileira.
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domingo, 26 de agosto de 2012

Femen Brazil: ativismo ou marketing?


A primeira vez que ouvi falar do Femen, achei-as no mínimo bem-humoradas. As militantes ucranianas utilizavam-se da nudez em protestos públicos. Ganharam a mídia da Ucrânia e a imprensa internacional com facilidade. Em seguida, vieram informações de que ainda que haja mulheres de outros tipos físicos na organização, sãos as loiras, brancas e com corpos “de gostosa” que ficam nuas. Segundo essa informação que chegou, essa “seleção” é uma estratégia (que parece ter funcionado muito bem) para chamar a atenção. Por mais que eu e tantas outras feministas questionássemos e discordássemos desta estratégia, ainda considerávamos que na conjuntura da Ucrânia – em que nenhuma de nós é muito expert – talvez esta linha de atuação fizesse mesmo mais sentido. Respeitar a autonomia dos diferentes grupos de militância em seus locais é sempre uma boa pedida.
Há alguns meses ouvimos falar que uma brasileira estaria trazendo o Femen para cá. Mantivemos as orelhas em pé, afinal de contas, podia ser um grupo aliado importante em muitas causas. Era preciso esperar para ver. Porém, Sarah Winter, a jovem mulher que começou a despontar na mídia de massas e na blogosfera como “o Femen no Brasil”, não me passou lá muita segurança. Ainda era cedo pra dizer qualquer coisa, para chegar a qualquer conclusão. Esperemos. Então ela começou a se pronunciar sobre vários assuntos, em programas de tevê, reportagens jornalísticas, etc. A quantidade de material reunido, para mim, passou então a ser suficiente para formar uma opinião, que compartilho aqui com vocês.
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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Por que o cyberativismo importa

Há algum tempo que me declaro cyberativista. Participo de coletivos, mantenho blogs, escrevo para sites e projetos coletivos como o Outras Palavras. Produzo conteúdo, espalho informação, opiniões e tento disponibilizar uma visão crítica sobre algumas coisas. Em meu blog, Mulher Alternativa, uso como estratégia falar de questões bem concretas na vida das pessoas (“Posso engravidar tomando anticoncepcional?” por exemplo). Mas sempre insiro criticidade e tento não reproduzir os discursos dominantes sobres estes temas. Como resultado, percebo um alcance razoável (ainda longe do ideal) destas ideias entre pessoas que jamais discutiriam comigo, caso meu blog tivesse “feminista” no nome, ou “gênero” (que raios é isso de gênero, aliás? – dirá a maioria dos leitores e leitoras na internet e no mundo). Recebo alguns e-mails e mensagens incríveis, encorajando-me a continuar escrevendo e produzindo conteúdo; outras contando que utilizaram meus textos como porta de entrada para um interesse maior em questões ligadas aos direitos das mulheres e desigualdades da nossa sociedade; algumas contando que essa incursão em pontos de vista renovados, da qual meu blog fez parte, transformou suas vidas de alguma forma.
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