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quinta-feira, 2 de julho de 2015

O pio da rola


Um dos acontecimentos do final de semana passado, que “bombou” na internet, foi um bate-boca entre Malafaia, conhecido pastor, e Boechat, âncora do Jornal da Band, que também fala na CBN.
Nas narrativas jornalísticas, o fato é descrito como se começasse com um desafio de Malafaia a Boechat para um debate cara a cara. Mas logo fica claro que Malafaia está reagindo (“Avise ao Boechat que ele está falando asneira…”). Boechat comentara a agressão a uma menina que voltava de um culto ligado ao candomblé, religião às vezes caracterizada como bruxaria por algumas confissões cristãs. O âncora explicitou essa relação, o que levou Malafaia a responder.
Para ler o texto completo de Sírio Possenti clique aqui

Leia o texto "Por que o jornalista não falou tudo?" de Daniel Gorte-Dalmoro clicando aqui


Leia o texto "Quando a crítica reproduz o preconceito" de SylviaDebossan Moretzsohn clicando aqui

sábado, 7 de março de 2015

LÍNGUA & LINGUAGEM: Eles não leem gramáticas


Saiu nova edição, aumentada, de O preconceito linguístico, de Marcos Bagno (São Paulo, Parábola Editorial). A primeira publicação foi em 1999, e provocou algum alarde. Por duas razões: uma foi colocar na praça, em tom de divulgação e com muitos dados empíricos, teses que destroem muitos lugares-comuns sobre o português. É incrível (isto é, não se pode acreditar) que, depois de tantas pesquisas feitas nos últimos séculos sobre línguas, a ‘sociedade’ ainda mantenha certas crenças (a mais grave é a noção corrente de erro).
A segunda razão do barulho que o livro causou entre alguns ‘sábios’ (colunistas e outros-istas que falam sobre língua em jornais e TV) foi seu tom um pouco duro com a mentalidade gramaticoide de muitos ‘intelectuais’, alguns dos quais foram nomeados.
Acrescente-se que, nas faculdades em que é lida, a obra não causa nenhum escândalo, pois que apresenta dados, fatos, a cuja análise introduz. Assim, um estudante de questões de língua pode comportar-se como um de botânica: estuda fatos.
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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

ECOS DO TERROR: Sempre as línguas!


O que aconteceu em Paris há poucos dias ocasionou a produção, fundamentalmente, de três discursos: 
a) apoio total aos humoristas do Charlie Hebdo, posição representada por “Je suis Charlie”; mais amplamente, tratou-se de apoio total à total liberdade de pensamento e expressão (especialmente na imprensa);
b) apoio à liberdade de expressão e à equipe do jornal, seguida da adversativa ‘mas...’, posição representada por “Je ne suis pas Charlie” (defesa da liberdade e pedido de sensibilidade, de respeito às diferenças etc.);
c) oposição clara a determinados trabalhos dos humoristas, posição representada ora por “Je ne suis pas Charlie” (a diferença está nos argumentos), ora por “Je suis X”, em que X é outro nome, que ora foi Coulibaly, ora Mohamed, como em algumas manifestações fora da Europa.
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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

LÍNGUA & LINGUAGEM: Questão semântica?


Quando polemistas dizem que uma questão é “semântica”, querem dizer que ela é secundária. Pensam que há uma ‘coisa’ no mundo e que é ela que interessa. Os nomes que a designam seriam ou irrelevantes ou estariam errados. Políticos e economistas são os militantes que mais caem nessa armadilha.
Qualquer interessado por questões como a relação entre língua, cultura, linguagem e ideologia, e – o que pode surpreender – pela linguagem científica, logo percebe que a questão semântica é fundamental.
Não há como ter acesso às coisas a não ser por meio das palavras. É por essa razão que cientistas são grandes usuários de metáforas para designar ou explicar ‘fatos’ (é uma forma de ‘aproximá-los’ do conhecimento anterior ou mesmo do senso comum).
Os fatos precisam de uma linguagem para ser expressos. E a linguagem pode enganar. Para fugir a esse problema, muitos cientistas ‘matematizam’ seus textos, por considerar que assim evitam o problema, ou que o superam.
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terça-feira, 4 de março de 2014

LÍNGUA & LINGUAGEM: Eufemismos

Quase todos os estudiosos que tratam das funções da linguagem destacam a função referencial, isto é, o fato de que falar é, em alguma medida, falar do mundo: de coisas por meio de palavras ou expressões e de fatos por meio de proposições.
Assim, uma palavra como ‘árvore’ refere-se a uma coleção de indivíduos com determinadas características; ‘pinheiro’ refere-se a um tipo de árvore com determinadas características; ‘este pinheiro’ refere-se a um indivíduo particular (que, possivelmente, está no campo de visão do locutor e do interlocutor).
‘A neve é branca’ ou ‘o presidente viajou’ referem-se a fatos. O primeiro, supostamente, é um fato em qualquer lugar e tempo, enquanto que o segundo só o é para uma região e durante um período de tempo.
Claro que nem tudo é tão pacífico. Se, em vez de ‘a neve’, dizemos ‘os vândalos’, a relação entre palavra e coisa (pessoas) pode ser considerada segura em uma língua e em certa época, mas também pode ser contestada (eles não são vândalos, são manifestantes).
Ou seja, nem sempre a referência é aceita por todos os falantes de uma língua. Estudos de discursos particulares mostram que esse fenômeno é de extrema relevância. De fato, é um dos mais relevantes, se se quer conhecer uma língua de forma a incluir o sentido, que, afinal, talvez seja o que mais importa.
Considerem-se, como exemplos facilmente aceitos, a famosa novilíngua do romance1984, de George Orwell, ou os fatos descritos em LTI, a linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer. Provavelmente, o consenso entre os falantes sobre o que uma palavra refere ou uma proposição afirma se restringe aos campos em que não há disputa.
Até mesmo os regionalismos, que têm pouca ou nenhuma carga ideológica, testemunham as discrepâncias no interior das línguas, de forma que a tese de uma língua comum, em um país, não passa de fato de uma fórmula ideológica, com evidente peso político.
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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

LÍNGUA & LINGUAGEM: Um mito

O mito mais renitente sobre as línguas é o de que teria havido, em algum momento, línguas perfeitas. Em cada país – ou cultura – há quem lamente sua decadência. As pessoas estariam falando muito mal, ninguém mais respeita as regras, a gramática precisa “voltar” a ser ensinada, quem sabe até mesmo o latim, já que isso ajudaria a melhorar as coisas, da grafia ao sentido, passando pelas regências e concordâncias. As queixas são generalizadas.
A primeira versão desse mito que conhecemos é a história de Babel, embora no Livro não se diga que se falava corretamente, mas apenas que se falava uma só língua e todos se compreendiam. O castigo foi a diversidade linguística. Antes disso, o Livro informara que Adão deu a cada criatura um nome adequado. Não se fala em sintaxe, concordância, regência, muito menos em correção, mas apenas na adequação dos nomes, que, diga-se, é hoje um tópico de muitas queixas.
Na verdade, o mito da decadência (o avesso do da perfeição antiga) vigora em muitos outros campos: os escritores eram melhores, havia verdadeiros filósofos, os políticos tinham mais compostura (e eram melhores oradores), o casamento era para valer, as mulheres, então... etc.
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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Língua: modos de usar


Durante muito tempo, ninguém duvidou que o desempenho dos falantes pudesse ser qualificado em certo e errado. Mas, há pelo menos dois séculos, essa tese caiu em desuso. A questão ainda não é bem compreendida, mas a confusão atual é um indício de avanço. Bem ou mal, as variedades (antes) tidas por erradas são levadas em conta, até aceitas, desde que fiquem em seu lugar. Mais na prática do que na teoria, diria.
Para ler o texto completo de Sírio Possenti e Danilo Marcondes clique aqui

quarta-feira, 3 de julho de 2013

LÍNGUA & LINGUAGEM: Por que falamos como falamos?

É notório que a língua dos falantes do português do Brasil (PB), excetuada a de poucos profissionais em situação bastante monitorada, é bastante diferente do português de Portugal (PE, de europeu). Estou simplificando, é claro, porque nem todos os portugueses falam do mesmo modo, e o mesmo ocorre com os brasileiros.
Mas estamos longe do velho clichê que reduzia as diferenças ao léxico e ao infinitivo deles no lugar do nosso gerúndio (estou a cantar, estou cantando). A realidade é bem mais complexa, e começa a ser mais bem conhecida.
Uma das teses sobre a relação do PB com o PE é que as diferenças se deveriam a um emprego mais frequente no Brasil de construções dialetais raras em Portugal. Sendo assim, a diferença se explicaria por uma deriva mais ou menos comum. Se a tese estiver correta, falaríamos simplesmente uma língua neolatina.
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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Línguas e dialetos


Há diversas maneiras de falar (ou escrever) qualquer língua. Normalmente (até popularmente, porque os ‘saberes’ se disseminam), línguas são avaliadas segundo os critérios de certo e errado. Mas especialistas não se aferram a tal tratamento. As análises exigem novas categorias. Por exemplo, as de língua e dialeto (ou variedade).
Usualmente, faz-se equivaler língua a ‘língua certa’ (ou padrão ou norma culta) e considera-se que as variedades seriam ‘derivadas’ dessa língua. Assim, haveria uma língua e suas variedades, decorrentes dos erros, simplificações, corrupções.
Mas de onde essa língua viria? Dos clássicos, acredita-se. Supõe-se, mais ou menos miticamente, que teria havido uma língua perfeita em algum momento do passado. A prova seriam certas construções gramaticais tidas por exemplares. No entanto, mesmo os clássicos escreveram variavelmente, empregaram formas que não servem como exemplos de norma culta (Camões escreveu “frecha” e “alevanta”; Machado, que a velha estava “meia cansada” etc.).
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terça-feira, 29 de maio de 2012

LÍNGUA/LINGUAGEM: Evolução? Mudança!

A partir da falsa dicotomia língua primitiva X língua sofisticada, o linguista Sírio Possenti reflete sobre as adaptações da língua em diferentes sociedades, que adotam critérios próprios, de acordo com seu gosto e suas necessidades.
Para ler o artigo completo de Sírio Possenti clique aqui

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Língua e sociedade

Como já disse anteriormente neste espaço, muitos pensam nas línguas tendo como pano de fundo apenas a questão da correção. Essa mentalidade alimenta os discursos da decadência, velhos como a humanidade. Desde que se tem notícia, camadas (superiores?) da sociedade afirmam que a língua está em decadência.
O que alimenta essa tese é a crença de que teria havido uma língua perfeita: a de antes de Babel, o grego antigo, o latim clássico, até mesmo o português antigo, que era, em certo sentido, o latim ‘errado’. Mas línguas nunca foram perfeitas, pelo menos não no sentido que se atribui à palavra nesses ‘centros’ de pensamento. É pura ideologia, no sentido mais banal da palavra.
Outros tantos pensam que as línguas são meios de comunicação. O que importa é a mensagem, o objetivo é ser bem-sucedido (chega-se a ouvir que o erro seria não ser entendido!). O curioso é que, às vezes, a melhor comunicação (publicitária, literária, humorística) é aquela em que a mensagem está implícita. Ora, o implícito é o que não é comunicado, por definição.
Mas uma língua é bem mais do que tudo isso. Seria o principal divisor entre humanos e não humanos. Além disso, estaria fundada em princípios universais, quiçá biológicos, alguns deles inatos, tese obviamente controversa, mas que se reforça numa época em que pesquisas genéticas ganham espaço e força.
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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Linguistas e gramáticos


Os estereótipos são que os gramáticos defendem o português correto, formal, e que os linguistas defendem todas as variantes. Minha impressão pessoal é que o predicado “defensor” até pode ser aplicado ao gramático, mas é incorretamente aplicado ao linguista. As principais diferenças entre os dois grupos, ou entre os dois grupos de teorias (sem esgotá-las), considerados diversos critérios são apresentados por Sírio Possenti aqui

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Preconceito linguístico

Um dos debates mais quentes do ano foi sobre um livro didático acusado de ensinar regras de português erradas (na verdade, ninguém leu o livro; foram lidas algumas frases soltas de uma das páginas de um dos capítulos). A acusação mereceu diversas manifestações de especialistas, que tentaram mostrar que uma língua é um fenômeno mais complexo do que parece ser quando apresentada apenas em termos prescritivos.
Um dos pequenos avanços da mídia (que, no quesito, representa grande parte da sociedade instruída) foi reconhecer que as teorias e as pesquisas linguísticas têm legitimidade. Mas acha que devem restringir-se à universidade. Para um linguista, tal posição equivale a sustentar que só se deve ensinar reprodução na universidade. Até o fim do colegial, deve-se ensinar aos alunos que as crianças são trazidas pela cegonha.
Um dos itens do debate foi o preconceito linguístico; questionou-se sua existência. Chegou-se a afirmar que a “defesa” de traços da fala popular produziria como um dos efeitos um preconceito às avessas, contra os que falam corretamente. Foi uma das leituras mais desastrosas que a mídia conseguiu fazer da questão.
O que seria o tal preconceito linguístico? Ele existe? Se sim, qual a sua natureza? Se deve ser combatido, como todos os preconceitos, quais deveriam ser as armas de combate? Para ler o texto completo de Sírio Possenti clique aqui

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Língua portuguesa: sobre gramáticas

Com exceção de alguns especialistas, todos fomos levados a crer que uma gramática é um compêndio de regras que devem ser seguidas. Ela é praticamente reduzida a uma lista de acertos, o que provoca o surgimento de listas de erros.
Uma enormidade de apostilas, sites, blogues de especialistas em ‘reprodução’ fornece a curiosos ou a pseudonecessitados outras listas com as formas que podem e as que não poderiam empregar em seus relatórios (mas empregam...).
É verdade que esse tipo de regra (listas?) é uma gramática, mas apenas em um sentido da palavra e que leva em conta apenas uma das funções que tais obras desempenham em sociedades como a nossa.
Sua principal função é manter e realimentar o imaginário sobre uma suposta língua correta e bonita, sempre mais antiga. Outra função é contribuir com um ingrediente muito importante para cimentar a ‘unidade nacional’, com a ideia de que somos um povo que falamos uma só língua (tese fácil de desmentir, aliás, mas suficientemente forte para resistir a argumentos e a fatos).
Nunca se ouve, em uma festa ou em mesa-redonda, alguém perguntar pela classificação de “exceto”, ou se “fantasma” é abstrato. Mas todos querem saber se a pronúncia correta é “ibero” ou “ibero” (as letras em negrito representam as sílabas tônicas), se é ou não um sinal do fim do mundo que se diga “Minha bolsa cabe de tudo” e onde vamos parar se os jovens não distinguem mais “ascendência” de “descendência” e se escrevem “ele se difere dela”, em vez de “se diferencia”.
Enfim, as gramáticas não só prescrevem. Elas também descrevem e tentam explicar fatos de linguagem que ocorrem, seja na escrita (que é muito diversificada), seja na fala (ainda mais variada).
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