A revolução não será televisionada....
As grandes capitais brasileiras estão sofrendo. Esse sofrimento tem fortes e perigosos vínculos com traços históricos de autoritarismo, manifestado por governantes; governantes estes (re)eleitos pelo povo. Um povo que se encontra cada vez mais é iludido e enganado por uma publicidade institucional mentirosa e de um discurso desenvolvimentista e empreendedor, aliado a um silenciamento dos grandes veículos da midia, que escondem os abusos de governantes do Rio, São Paulo e Belo Horizonte. Têm-se um discurso dissimulado, cujo cenário oculta incêndios criminosos, desocupações violentas e invasões autorizadas pela justiça, sendo justificadas sempre com os mesmos argumentos: manter a ordem, evitar a baderna, conter uma população enfurecida e repreender traficantes e viciados em drogas.
O mais recente, e gritante, exemplo de autoritarismo encenado pelo prefeito de Belo Horizonte pode ser visto nesta última sexta feira, no dia 9 de novembro de 2012, em um dos locais mais tradicionais da boemia de belohorizontina: o edifício Maletta. Prédio histórico para a cidade, local do encontro de artistas, intelectuais, estudantes, políticos de esquerda desde a década de 1960. Ele foi incubadora de ideias, nele surgiram grupos que defenderam, e sofreram, pela luta por maior liberdade e democracia, tanto para a cidade quanto para o país.
Atualmente o lugar passou por transformações. Novos, e jovens, empreendedores abriram cafés, bares, salas onde grupos discutem ideias, propostas, se encontram para beber, conversar e se divertir. Tais transformações revitalizaram o espaço, trazendo novas pessoas com ideias e ideais, movimentos e tendências, ou seja, o velho Maletta estava "reconquistando" o seu lugar na noite da cidade. O grande número de pessoas que lá se encontram também pode ser entendido como reflexo do fechamento de outros espaços alternativos, deixando com que as pessoas que gostavam de locais mais informais e alternativos; aqueles espaços mais despojados, onde se abraça os encontros entre os múltiplos olhares, ficassem sem espaços para se encontrar. Um anacronismo ao se pensar uma cidade que, sempre teve como propaganda, possuir a maior concentração de bares por pessoa, mas que agora, tem um cerceamento à ocupação urbana, com o fechamento de espaços de mobilização cultural, fazendo uso de artifícios e lacunas legais para legitimar uma ação mais violenta.
Nesta sexta feira, do dia 9 de novembro, os clientes que se encontravam nos estabelecimentos do edificio Maletta tiveram um gostinho da nova versão, "não mais bonzinho" do nosso prefeito. Munido do aparelho repressor que lhe cabe: a polícia, acompanhada por oficiais de justiça, cães e o juizado de menores, invadiram e lacraram o espaço, numa sexta à noite, deixando atônitos consumidores, famílias, jovens, mulheres e idosos. Chegaram trazendo pânico para pessoas que não tinham a menor ideia do que estava acontecendo, interrompendo de maneira traumática seu momento de lazer, tendo o seu direito de ir e vir, principalmente ao da informação, simplesmente negados pelos oficiais em serviço.
Indignados, alguns retiraram seus celulares e buscaram registrar toda aquela ação, que ocorria sem a menor justificativa, sem a divulgação de algum mandado de busca que justificasse tal ação, nada. O que se teve foram pessoas sendo violentadas, aterrorizadas e arrastadas para camburões sem ao menos saber: por quê?
Suspeita-se que a ação foi uma meneira de intimidar o grupo de manifestantes e críticos ao prefeito chamado "Fora Lacerda", que havia marcado pela internet, numa das dependências do edifício Maletta, um local para o recebimento de doações para auxiliar as vítimas da Comunidade Eliana Silva. Famílias que foram expulsos de suas casas de forma violenta, sem direito a explicação ou ao conhecimento dos fatos; simplesmente recebendo, de maneira abrupta e maciça, dos braços repressores do Estado, um tratamento desumano e humilhante, que é a negação e a pilhagem de seus parcos pertences.
Quando fiquei sabendo do ocorrido da sexta à noite, corri para buscar mais informações em sites e jornais de Belo Horizonte e, eis que, para minha "surpresa", nada havia sido noticiado ainda. Percebi um movimento de indignação correu as redes sociais, sites de notícia independentes, alertando para o fato ocorrido em Belo Horizonte. Links, fotos, alguns poucos vídeos e depoimentos foram compartilhados e retuitados na rede, mas, nos demais veículos de comunicação, apenas o silêncio.
Confesso que temo que uma versão deturpada do acontecimento seja veiculado. Uma versão que acabe por colocar aqueles que foram presos, sob a acusação de "desacato à autoridade", como bandidos e baderneiros, jogando um veu opaco sobre mais um trabalho truculento dos agentes de segurança. Agentes que repreenderam cidadãos de bem que estavam apenas querendo registrar a forma abusiva e autoritária que funcionários e agentes públicos abordavam pessoas, obrigando-as a passar por revistas individuais humilhantes, quebrando e saqueando aparelhos eletronicos; agentes que aterrorizaram pessoas que estavam, inocentemente, desfrutando de um início de fim de semana com seus familiares entre comidas e bebidas de forma inocente.
Abaixo apresento o texto do professor Fernando Torres Pacheco, morador de Belo Horizonte, mas que atualmente trabalha no Amazonas. Fernando apresenta suas impressões sobre as ações que sufocam o cidadão comum, assim como ele, de Belo Horizonte. Sua angústia também pode ser vista como uma crônica triste da realidade que assola as demais capitais do sudeste, locais onde a publicidade e a maquiagem ganham espaço, e um grupo cada vez maior de iludidos vão tendo sua liberdade cerceada sem ter a menor ideia do que se passa (Bruno Paes).
Para ler o texto, clique aqui.

