Mostrando postagens com marcador Luís Eustáquio Soares. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Luís Eustáquio Soares. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

DISCURSO & IDENTIDADE: Imperialismo, luta de classes e novas tecnologias de comunicação


1. Em Arqueologia do saber (1969), Michel Foucault inscreveu um lugar específico para a metafísica, as unidades discursivas. E o que são elas? São as crenças nossas de cada dia nas identidades dos rostos, tenham a configuração que vierem a ter. Supor que tal autor escreveu tal livro é render-se a duas unidades discursivas ao menos: a de que um autor é fulano de tal, na suposição de que tal fulano seja ele mesmo, ontem, hoje e amanhã; e a de que tal livro tenha um começo e um fim definidos pelo unidimensional autor.
2. A metafísica das unidades discursivas é uma abstração que ignora o óbvio: por mais que pretendamos cultivar nossas singularidades autorais, ninguém e nada é o que é pela evidente razão de que somos antes de tudo seres coletivos. Eis porque as unidades discursivas, ser quem nos supusemos, podem ser analisadas igualmente como uma espécie paradoxal de sequestro de coletividades.
Para ler o texto completo de Luis Eustáquio Soares clique aqui

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

INDÚSTRIA CULTURAL: Os três imperialismos e 'A hora da estrela' dos povos


1.
Se se considera o romance A hora da estrela (1977) da escritora brasileira Clarice Lispector, seria possível perguntar: quem é a protagonista, Macabéa? Sim, é uma nordestina analfabeta que vive numa cidade letrada, Rio de Janeiro – e letrada porque a escrita é nela e em qualquer cidade do mundo ocidentalizado um referencial onipresente em todos os espaços. Não saber ler e escrever num ambiente urbano é como não conhecer as trilhas de uma floresta densa, cheia de perigos, tornando-se presa fácil de diversas situações, previsíveis e imprevisíveis.
2.
Macabéa, pois, é o outro lado da escrita num contexto em que esta inscreve por sua vez a sua impossibilidade de ser. A escrita, portanto, no romance de Clarice Lispector, é para a protagonista analfabeta, uma ameaça e uma sentença de morte, tornando-a anônima, invisível, impossível. Tendo em vista que o romance narra efetivamente a vida de quem não se escreve porque não está na escrita, o que na obra se coloca sob o ponto de vista estético, é: a literatura é instância do impossível porque deve se voltar contra si mesma (contra a cultura letrada) a fim de se tornar minimamente apta a narrar invisíveis Macabéas.
Para ler o texto completo de Luis Eustáquio Soares clique aqui

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Hamlet, os três imperialismos e a indústria cultural


1.
Se se considera o livro Cultura e imperialismo (1995), de Edward Said, o que se evidencia nele é uma cuidadosa investigação sobre a relação entre cultura e imperialismo europeu, de tal modo a ficar patente o papel dos artefatos culturais como suporte da expansão imperialista do Ocidente europeu, principalmente tendo em vista a sua versão inglesa. Um exemplo pode ser esgrimido com um livro singular como Hamlet, de Shakespeare.
2.
Em Hamlet, dois personagens contraponteados se inscrevem como figuras catárticas de uma moral da história voltada e devotada a instigar a expansão imperialista inglesa muito antes ainda do termo, imperialismo existir. Os personagens são o próprio Hamlet, príncipe da Dinamarca, e Fortimbras, príncipe da Noruega. Enquanto este sai para o mundo guerreando e conquistando territórios, aquele, por sua vez, concentra-se no interior do castelo e se vê tomado por uma rede de intrigas que tem o fantasma do pai (leia-se o fantasma do passado) como interlocutor fatal. Não é circunstancial que no final da peça a corte inteira da Dinamarca (incluindo Hamlet, rainha, rei, irmão de Ofélia) mata e se mata, enquanto Fortimbras chega para tomar para si o reinado, inclusive com a bênção de Hamlet, que o admira.
Para ler o texto completo de Luis Eustáquio Soares clique aqui

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Os três idiotas do capital


1. Como definir um idiota? Etimologicamente, e se dane a etimologia, a palavra idiota vem de idio, que significa próprio. É, pois, aquilo que é próprio de alguém e que, assim sendo, torna-o distinto das demais pessoas. Um idiota é um “próprio” concebido, pois, de forma negativa, na suposição de que seja um palhaço, um infantil, um besta, um Zé Mané – um idiota.
2. Essa definição de idiota não o define. A etimologia, entendida como a história da origem (geralmente grega e romana) das palavras é, pois, coisa de idiota, tal como este ensaio pretende descrevê-lo. Sendo o que é próprio, mas no sentido inverso do usual, um idiota é a própria, para ser redundante, origem mitológica da palavra e, portanto, dos seres. Um idiota, nesse sentido, pode ser assim compreendido: é aquele ou aquela que é apresentado e representado ao mesmo tempo. Essa forma de compreender o idiota a tomo emprestada, embora em outro contexto, de Alain Badiou. Para o filósofo francês do evento, em diálogo com Platão, a natureza é aquilo que é apresentado e representado ao mesmo.
Para ler o texto completo de Luís Eustáquio Soares clique aqui

terça-feira, 11 de novembro de 2014

MÍDIA & BIOPODER: A fantástica fábrica de chocolate


1. O que é a política? A política como bem o sabemos é o espaço da relação entre os muitos, razão pela qual é uma questão de múltiplos. Não é circunstancial que a corrupção, sempre uma questão de números, é tanto mais evidente, logo uma questão política, quanto mais números à direita incluir, não sendo por acaso que seja uma questão de rico, pois todo rico é ladrão, à direita; e todo pobre, à esquerda, é roubado.
2. Mas o que é mesmo a política? É uma questão, ouso dizê-lo em época niilista, eminentemente maniqueísta. O problema, pois, da política é a existência de ricos e de pobres. Não existe outro. E tudo mais que esconde ou tergiversa essa questão é falsa ideologia a serviço dos ricos.
3. Existem dois modos, pois, de compreender e viver a política. A política dos ricos e a política dos pobres. As mediações ou o que vem no meio (e estamos todos no meio disso) nada mais são que jogo/luta ideológica entre a política dos pobres e dos ricos, orquestrada em termos de relações de força realmente existentes.
Para ler o texto completo de Luis Eustáquio Soares clique aqui

quinta-feira, 5 de junho de 2014

A GLOBO & A COPA: Manifesto Antropófago e a meta-história da TV Globo

1
O português Pedro Fernandes Sardinha, nascido em Évora em 1496, tornou-se, em 1551, o primeiro bispo brasileiro. Em 1556, foi capturado e, num ritual antropofágico, devorado pelos Caetés, que ignoraram suas ameaças de castigo eterno e o saborearam com alegria, ritualisticamente.
2
374 anos depois, o banquete canibal dos índios Caetés inspirou o poeta e escritor modernista brasileiro, Oswald de Andrade (1890-1954), a escrever o Manifesto Antropófago (1928), no qual se encontra a proposição de uma fome antropofágica como uma espécie de conjunto vazio a partir do qual a formação do povo brasileiro se daria, sem cessar, a partir da ruminação antropofágica de tudo que a humanidade produziu, em todos os quadrantes. O brasileiro seria, sob esse ponto de vista, um estômago sem fundo que devoraria outros povos, outras culturas, formando-se ou deformando-se a partir da interação canibal com o mundo exterior.
3
Essa interação canibal com os outros povos, como condição iconoclástica para a híbrida formação multicultural do povo brasileiro, deveria, no Manifesto Antropófago, assumir três configurações simultâneas: a saber: 1) ser pré-adâmica; 2) pré-escrita; 3) pré-cabral, donde seja possível deduzir que nossa fome antropofágica de povos e de cosmos se daria sob o signo da antecedência ao que comumente chamamos de civilizado, de histórico, de registrado, de legalizado, de instituído.
Para ler o texto completo de Luís Eustáquio Soares clique aqui

terça-feira, 20 de maio de 2014

Freud, o inconsciente social, Echelon e a mídia

No poema-livro Café – Tragédia Secular, do poeta modernista brasileiro, Mário de Andrade, é possível ler os seguintes versos: “Eu sou aquele que disse:/ eu sou a fonte da vida/Não conte o segredo aos grandes /e sempre renascerás./Força!... Amor!... trabalho!... paz...”. Por sua vez, no poema “Nosso Tempo”, do livro A rosa do povo, de Carlos Drummond de Andrade, os seguintes versos podem ser lidos: “ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiador/[urbano/ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,/moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos,[...], colchetes no chão da/[costureira, luto no braço, pombas, cães errantes,/[animais caçados, contai./Tudo tão difícil depois que vos calastes...”
Que relação possível teria entre os versos “Não conte segredo aos grandes/ e sempre renascerás”, de Mário de Andrade; e o apelo do poeta mineiro, Carlos Drummond de Andrade, para que os não grandes, velhas pretas, poetas, pequenos historiadores, pombas, cães errantes contem ou venham a contar os seus segredos inconfessáveis? Como guardar segredo aos grandes e contar aquilo que estes não apenas não querem ouvir, mas também e antes de tudo fizeram calar? O inconsciente social de uma dada época de tradição do oprimido estaria na relação entre o que se conta para os grandes, através destes e o que é calado, inviabilizado, tornando-se inconfessável?
Para ler o texto completo de Luís Eustáquio Soares clique aqui

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Fernando Pessoa, Lacan e o Todo TV Globo

“Somos todos quem nos supusemos”, anuncia, em verso, Álvaro de Campos, heterônimo do poeta português, Fernando Pessoa, no poema “Pecado Original”, que assim começa: “Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?/ Será essa, se alguém a escrever/A verdadeira história da Humanidade.” Se, parafraseando um verso do poema, somos quem falhamos ser, é preciso antes fazer duas singelas perguntas: por que estamos condenados a falhar? O que é falhar?
Para ler o texto completo de Luís Eustáquio Soares clique aqui

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

PERFIL DO BUFÃO: O comentarista e a confissão golpista

Mídia cada vez mais desgastada.
1. – Em História da sexualidade (1976), Michel Foucault (1926-1984) chamou de dispositivo de sexualidade o uso que a civilização burguesa fez e faz do sexo com o objetivo de produzir perfis humanos adaptados ao modelo produtivo do capitalismo. O dispositivo da sexualidade é responsável pela confecção da norma, que pode ser definida como a alma do negócio do lucro, da concentração de renda, dos donos do mundo. A alma do capital.
2. – O dispositivo da sexualidade não pressupõe a repressão sexual. Antes pelo contrário, ele estimula a afirmação das sexualidades, principalmente aquelas vistas e concebidas, ainda hoje, como desvios pelo padrão heterossexual, patriarcal, monogâmico. Ele é como a parábola do filho pródigo: interessa-se não exatamente pelo filho que fica com o pai, o normal, mas por aquele que vai para o mundo, que foge do padrão, que tem coragem de se aventurar e está disposto a enfrentar as intempéries da vida para produzir o seu futuro longe da norma paterna.
3. – O dispositivo da sexualidade, portanto, tem, antes que pelo crente (os que são considerados normais, previsíveis, aceitáveis, adaptados), interesse pelo insubordinado, o insubmisso, o diferente, a alteridade. Sua aplicação social, portanto, tem o seguinte objetivo: estabelecer a norma dos diferentes, domesticando-os.
Para ler o texto completo de Luis Eustáquio Soares clique aqui

terça-feira, 17 de setembro de 2013

TV GLOBO: O supremo tribunal de exceção

1.
Se, no campo das artes e do pensamento, o gênio nada mais é que o sujeito que se permite ao deliro, tal que ele e o louco varrido se tornam indiscerníveis, então é possível definir dois tipos de gênio: um primeiro marcado por um delírio reacionário, fascista mesmo; e um segundo por um delírio libertário.
2.
Ambos têm um traço em comum: sabem que tudo é delírio, que tudo lira, delira, razão por que expressam com grande precisão o que o conformismo generalizado tende a esconder, dissimular, proteger, covardemente, a saber: o homem, ou deliria Deus, transcendências, posses, poderes, hierarquias, o reino do já dito, a herança do passado ou o passado como herança presente e futura; ou delira a invenção de si sem Deus, a imanência, a despossessão; futuros possíveis da própria humanidade, como potência de inteligência coletiva.
3.
O gênio, enfim, ou deliria Deus, logo o passado autoritário de toda uma coletividade; ou delira a si mesmo, logo a humanidade inteira, razão suficiente para sustentar o argumento de que ele efetivamente não existe, pois é sempre a encarnação possível da loucura da humanidade em certa circunstância histórica; a loucura daquilo que Marx chamava de inteligência geral, que ora pende, através do gênio, para um lado profundamente reacionário, ora para outro libertário, prenhe de justiças que inscrevem cenários possíveis para o conjunto dos humanos, num contexto em que não haverá mais gênios reacionários, porque seremos todos a invenção de nós mesmos através da livre invenção de todos.
Para ler o texto completo de Luís Eustáquio Soares clique aqui

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A sociedade do espetáculo difuso e o devir negro-gay de Putin

1.
Bakhtin não se cansava de nos lembrar que o signo é ideológico. A ideologia, por sua vez, bem mais que uma falsa consciência, deve ser entendida afirmativamente: é a hierárquica história humana acumulada como monumento à barbárie, para dialogar também com Walter Benjamin.
2.
Uma ideologia é, pois, o próprio monumento, bárbaro porque foi construído à custa de indescritíveis genocídios, humilhações, escravidão, desprezo, indiferença, preconceitos, guerras, arrogância, presunção, mentiras. O monumento é o fetiche que abstrai, em seu engenho e arte, as relações de opressão entre humanos. Nenhuma civilização baseada na opressão (de classe, de gênero, étnica, simbólica, etária) existiria sem o que é possível chamar de forças de trabalho assassinadas no monumento.
Para ler o texto completo de Luís Eustáquio Soares clique aqui

domingo, 8 de setembro de 2013

LIBERDADE DE EXPRESSÃO: As quatro figuras do apocalipse e a indústria cultural

Michel Foucault, no primeiro volume da História da Sexualidade, parte da seguinte premissa: a história do mundo moderno, incluindo o contemporâneo, é simultaneamente a da produção do biopoder, entendido como uma forma de tecnologia de dominação através da qual o soberano, com seu romano poder de morte sobre os súditos, perde espaço (principalmente nos países centrais do Ocidente) para uma emergente jurisprudência: a que foca seu raio de ação no poder de vida, de gestar, organizar, classificar, distribuir, perfilar vidas humanas, subjetividades, num contexto em que as forças da vida, fundamentalmente adaptadas à ordem produtiva do capital, tomam o lugar das forças da morte.
Para ler o texto completo de Luis Eustáquio Soares clique aqui


segunda-feira, 26 de agosto de 2013

KAFKA & GUIMARÃES ROSA: A sociedade do controle soberano

O cenário da luta pelo poder ocorre também e talvez até antes de tudo no campo semântico, da produção de sentidos. Os sentidos dominantes numa sociedade são precisamente o daqueles que detém o poder. E o que é o sentido? O sentido é simplesmente o que nos faz sentido, aquilo que entendemos como importante em todas as dimensões da vida: o sentido do amor, da religião, do trabalho, da política, da arte, da amizade, da vida social, enfim.
Não existe, por outro lado, nada mais impalpável que o sentido. Não o vemos. Não é concreto e esfumaça-se no ar mal o lemos, ouvimos, pensamos, sonhamos, produzimos, sem contar que nunca é coeso e puro, razão por que não existe o sentido, mas aglomerados de sentidos, de significações que são ao mesmo tempo políticas, subjetivas, econômicas, ideológicas, impuras, contraditórias, errantes.
Esse aspecto escorregadio, difuso e imaterial dos sentidos nos coloca diante das seguintes questões: onde está o sentido de algo? Está oculto ou, pelo contrário, na superfície, à vista? A partir de onde buscar o sentido de um texto literário, de uma manifestação de rua, de um filme? Em Investigações filosóficas (1953), o filósofo austríaco Wittgenstein (1889-1951) assim se posiciona sobre essas questões de sentido: “É no estado civil das contradições e no seu estado no mundo civil, eis o problema filosófico”, problema de sentido.
Para ler o texto completo de Luís Eustáquio Soares clique aqui

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Franz Kafka e os roteiros da panóptica espionagem global

 
1.
Um dos aspectos mais interessantes da literatura do escritor checo Franz Kafka (1883-1924) está relacionado com a sua potência para mostrar como as relações de poder se inscrevem em todos os lugares, porque tudo está absolutamente misturado. É assim, por exemplo, que no romance O processo (1925), o ateliê do personagem Titorelli, pintor de juízes, é também o seu quarto de dormir, que é também um cubículo de um imenso cortiço popular, que é também o próprio tribunal de justiça, onde K, o protagonista da narrativa, é processado sem ter feito mal algum.
2.
Em consonância com a trama do romance O processo, é possível argumentar que todo e qualquer poder é tanto mais presente quanto mais onipresente; tanto mais potente quanto mais onipotente e tanto mais transcendente quanto imanente, quanto mais existe em qualquer um, de tal maneira que seu centro se confunde com sua periferia, tal como ocorre em outro romance de Franz Kafka, O castelo (1926), cuja trama apresenta um nevoado castelo no topo de uma montanha e uma vila cujos habitantes vivem em função de sua onipresença soberana, não obstante a impossibilidade de alcançá-lo, como se ele existisse de tanto não existir realmente: uma miragem que assombra os aldeões, contaminados que estão com a bruma misteriosa e indevassável que vem do castelo.
Para ler o texto completo de Luís Eustáquio Soares clique aqui

terça-feira, 9 de julho de 2013

Os aviões não tripulados das edições midiáticas


Marx, no primeiro volume de O Capital (1867), forneceu-nos a fórmula de nosso sistema mundial de produção de mercadorias: D-M-D, onde d é dinheiro e m é mercadoria. Não sem humor, o que Marx pretendia mostrar com essa equação era simplesmente que ela se constitui como um verdadeiro círculo vicioso, pois qualquer relação mediada pelo dinheiro perde seu conteúdo intrínseco, suas qualidades próprias, e se torna parte de uma relação mercantil; entra, quer queiramos ou não, no circuito das relações mercadológicas – na verdade um curto-circuito que atinge indistintamente o amor da mãe pelo filho, os amores carnais, as amizades mais sinceras, as lutas pela emancipação da humanidade. Através da falsa – mas soberana – universalidade da abstração do dinheiro, tudo tende a ser sequestrado, entrando no redemoinho do domínio do capital, situação que faz com nada mais possa se tornar referência comum, planetária: só o dinheiro pode ser global, razão por que, nesse contexto, tornamo-nos os cordeiros do deus dinheiro, seus súditos, suas mercadorias.
Para ler o texto completo de Luís Eustáquio Soares clique aqui

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A sociedade espetacular planetária de maio de 68


Os filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari propuseram duas formas de política para atuar, pensar, criar, ler, viver: uma política existencial molar e uma política existencial molecular. A primeira, a molar, é constituída por planos fixos, segmentados, já instituídos, como certa ideia de esquerda em contraposição a outras não menos previsíveis visões do que seja direita; bem versus mal, povo homogêneo, amigo versus inimigo, centro e periferia; pobre e rico; homem e mulher, heterossexual, homossexual; ser branco, ser negro, ser índio, ser criança, ser latino, ser americano, ser jovem, fases etárias, saberes instituídos, a própria língua, entendida como um conjunto de convenções que nos faz falar cadeira, por exemplo, e imediatamente pensar ou ver uma cadeira, objeto de quatro pernas contendo um suporte onde sentamos para realizar múltiplas atividades cotidianas; enfim, molar é tudo que está estratificado, organizado, dado, realizado, sendo perceptível, dedutível, acreditável. Por sua vez, a segunda perspectiva existencial, a molecular, é precisamente o contrário da molar: é tudo que não está dado, que não está pronto, que não está instituído, nunca é um à priori, de modo que também não é fixo, é movente, metamórfico, uma coisa e outra e outra, sem que possamos regular de antemão; sem que possamos dizer, “é isto”, “é aquilo”, porque é sempre um aglomerado de partículas, de misturas, de heterogêneos, de imperceptíveis, de séries divergentes. O molecular é, pois: o não visto, o não sentido, não pensado, não escutado, não realizado, não esquadrinhado, multiplicidades imprevisíveis.
Para ler o texto completo de Luís Eustáquio Soares clique aqui

terça-feira, 25 de junho de 2013

As manifestações dos jovens de classe média


1
No prefácio (1920) de Imperialismo, fase superior do capitalismo (1916), Vladimir Illitch Lenin (1870-1924), líder da revolução russa de 1917, define o imperialismo tal como sugere o subtítulo de seu livro, fase superior do capitalismo, detendo os seguintes traços: 1)através dele, o capitalismo se transformou num sistema mundial de subjugação; 2) que estrangula a maioria da população do planeta; 3) através de um punhado de países “avançados”, armados até os dentes; 4) que dominam e arrastam todo o planeta para uma incessante guerra pela partilha das riquezas dos povos; 5) saqueando-os implacavelmente;6) nesse cenário, não existe a mínima possibilidade de alternativas românticas, como se pudéssemos produzir história nacional, por exemplo, fora das estratégias imperialistas de dominação do mundo: ou nos submetemos, deixando que saqueiem nossos recursos e nossos povos humilhados e empobrecidos, quando não assassinados; ou nos armamos até os dentes entrando na disputa interimperialista; ou nos unimos, com países igualmente saqueados e submetidos, a fim de, em processo, através de uma agenda própria, construirmos história.
2
As duas guerras mundiais do século passado foram, sob esse ponto de vista, desencadeadas por países armados até os dentes que disputavam a partilha do mundo, principalmente os países do Ocidente, Alemanha, Inglaterra, França, Itália, Espanha, Estados Unidos, porque, se o imperialismo é a fase superior do capitalismo, ele é simultaneamente a fase superior da expansão colonizadora europeia; uma espécie de cruzada ocidental pela repartição não menos ocidental de todo o planeta, sob a forma, por exemplo, da imposição de um modelo único de produção econômica, o sistema mundial de produção de mercadorias, conforme a definição do filósofo alemão Robert Kurz, independente se prevalece, nele, o Estado, a “livre iniciativa” ou o socialismo, pois por todos os lados a mercadoria reina absoluta, mercantilizando-nos imperiosamente, ocidentalmente, através da expansão imperialista.
Para ler o texto completo de Luís Eustáquio Soares clique aqui

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Biopoder confessional e o protesto contra o aumento da passagem de ônibus


São Paulo -  Tropa de Choque da PM entra em confronto com manifestantes na Rua Augusta, durante protesto contra o aumento da tarifa do transporte público
Chamemos de discursos o reino dos ditos e dos escritos, independente da área do saber. Todas as sociedades, sob esse ponto de vista, são constituídas de discursos, de ditos e de escritos. Nelas e através delas um rigoroso controle dos discursos é implacavelmente exercido, razão pela qual o desafio da ordem social, fundamental para qualquer tipo de sociedade hierarquizante, está na relação direta com a ordem dos discursos. Uma sociedade, pois, é a sua ordem discursiva, seus ditos e escritos e principalmente seus interditos, suas escritas validadas, sagradas; e suas grafias proibidas, desqualificadas, profanas. Em A ordem do discurso (1970), o filósofo francês Michel Foucault propôs, como objeto de pesquisa precisamente isto: a história da ordenação dos discursos no interior da modernidade ocidental. Como uma edição escrita (um escrito de um dito) de sua aula inaugural no Collège de France,o livro A ordem do discurso de Foucault concentrou os principais temas com os quais o autor de Vigiar e Punir iria trabalhar doravante, motivo suficiente para a sua singular importância. Nele e através dele Michel Foucault procurou mapear o modo pelo qual a modernidade foi discursivamente organizada a fim de produzir seus próprios critérios de verdades e, portanto, de cientificidade.
Para tanto, Foucault argumentou que três dispositivos externos aos discursos foram fundamentais para as suas ordenações, no Ocidente. São eles: 1) A interdição da palavra; 2) a segregação da loucura; 3) a vontade de verdade. O primeiro dispositivo, a interdição da palavra, desdobra-se em dois campos interditados discursivamente: o sexo e a política, o que significa dizer que, na história da modernidade ocidental, o sexo e a política deveriam entrar literalmente numa ordem discursiva; deveriam ser ordenados como discursos ou simplesmente constituírem-se, se quisessem ser validados socialmente, como partes e contrapartes de uma ordem social que reconhecia de antemão o especial perigo da política e do sexo, de modo que, mais que evitá-los e expulsá-los da ordem discursiva vigente, o importante seria a classificação e a distribuição ordenada da política e do sexo, produzindo, por exemplo, um sexo sem política e uma política sem sexo, separando-os.
Para ler o texto completo de Luís Eustáquio Soares clique aqui

sábado, 1 de junho de 2013

O teatro do desoprimido e a catarse do cenário midiático

1
As sociedades humanas nada mais são que cenários teatrais produzidos por nós mesmos, num contexto em que somos tanto mais coadjuvantes quanto mais acreditamos em nossas próprias vidas, como se não fossem partes e contrapartes do teatro social no qual atuamos como personagens de nós mesmos.
2
Se a afirmação “o mundo é um teatro” é verdadeira o é porque nele atuamos como personagens que representam a si mesmos e, ao fazê-lo, atuam inevitavelmente como figurantes do cenário-mor: o teatro civilizacional que nos cabe viver, atuar, cumprindo à risca um script predeterminado quanto mais nos pensamos livres para escolher o mesmo, a saber: os objetos, sujeitos, valores, identidades, tecnologias, percepções, sensações, intelecções, saberes, amores, amigos, inimigos produzidos pelo próprio teatro civilizacional em que vivemos, para, antes de tudo, compor, ainda que de forma dinâmica, o seu cenário produtivo e simbólico, com seus sistemas de bens, com seus palcos institucionais e produtivos, nos quais atuamos como a gente mesmo, sendo efetivamente mero figurante, independente de nossa posição social, de vez que de uma forma ou de outra, mesmo como dissidentes, dependendo das circunstâncias históricas, com o passar do tempo somos igualmente transformados em ícones após sacrificados – ícones, bem entendido, do próprio cenário, da própria civilização, da própria farsa que somos.
3
Em América (1927), romance de Franz Kafka, o protagonista da narrativa, Karl Rossmann, foge de uma Alemanha decadente, após ter engravidado uma empregada, e parte clandestinamente para os Estados Unidos. Sem conseguir trabalhos na terra do Tio Sam, depara-se com um cartaz que diz: “No hipódromo de Clayton se contratará hoje desde as seis horas da manhã até a meia-noite, pessoal para o Teatro de Oklahoma. Chama-se o grande teatro de Oklahoma! (...) Este é o teatro que está em condições de empregar qualquer pessoa. Maldito seja aquele que não acredite em nós! Adiante, a Clayton! (Kafka, América, p.291)”. Diante de um cartaz tão apelativo, Karl não perde tempo, vai depressa para Clayton, onde tudo que você quiser ser você será. O grande teatro de Oklahoma, na ficção de Kafka, é a consciência ficcional de que América será doravante o teatro do mundo e de que a montagem da vida humana, a que chamamos de civilização, é cenário teatral onde atuamos para sermos o que quisermos, seja na realidade, seja em sonho, em desejo.
4
Chamemos de teatro dos figurantes ao Grande Teatro de Oklahoma, pois independente do papel que nele desempenhamos, em nossas vidas concretas, seremos sempre coadjuvantes de um cenário civilizacional previamente estabelecido. Chamemos a decadente civilização burguesa, da qual não passamos de meros figurantes, de o nosso Grande Teatro de Oklahoma; nela, tal como em Clayton, tudo que quisermos ser, seremos, num contexto em que sua teatral palavra de ordem é: “Maldito seja aquele que não acredite em nós!” Chamemos, por outro lado, de Teatro do Desoprimido a uma aberta, inacabada e experimental forma dramática cujo objetivo principal é: “Sejamos malditos, não acreditemos no Grande Teatro de Oklahoma da civilização burguesa!” Fujamos não de uma Europa em decadência rumo ao teatro burguês do momento, mas antes de tudo fujamos da civilização burguesa que fez de toda a Terra o cenário de nossa deplorável e submetida presunção de não figurantes, assim sendo mais ainda.
Para ler o texto completo de Luis Eustáquio Soares clique aqui

terça-feira, 23 de abril de 2013

Pós-modernidade e golpes midiáticos

1.
Em diálogo com Deleuze e Guattari, assumo o argumento de que o capitalismo vive de fluxos, com fluxos, pelos fluxos, de forma hiperpragmática. Estes, por sua vez, simplesmente podem ser traduzidos como forças terráqueas, sociais, tecnológicas, artísticas, identitárias, cosmológicas, como, enfim, quaisquer forças, independente de suas qualidades intrínsecas, razão por que, na fábrica mundial que é o capitalismo, tanto faz se as forças em questão forem, sob o ponto de vista das sociedades, democráticas, despóticas, terroristas, esquerdistas, patriarcais, femininas, racistas, liberadoras, fundamentalistas, revolucionárias, sexuais, criativas, operárias, narcísicas, solidárias.

2.
O capitalismo, sobretudo o contemporâneo, atua no planeta como um todo, transformando inclusive as fronteiras nacionais em forças a serem manipuladas, aqui e ali, assim e assado, em conformidade com os desafios desse ou daquele contexto histórico. É por isso que, de antemão, a expressão relação de forças, sob o ponto de vista do capitalismo, é vivida literalmente, como desafio: o capitalismo sempre atua nas relações entre as forças, independente delas mesmas; independente, pois, do que as forças pensam sobre si mesmas, razão por que, sob o ponto de vista do capitalismo, o relevante é que, mesmo pensando em si mesmas, as forças possam produzir riquezas, movimentando sem cessar o valor em mais valor, o lucro em mais lucro.
Para ler o texto completo de Luís Eustáquio Soares clique aqui

  © Blogger template 'Solitude' by Ourblogtemplates.com 2008

Back to TOP