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quinta-feira, 23 de julho de 2020

José Pastor Duarte Silva: "As estrelas hoje saíram"

Casal Contanto Estrelas no Céu | Fotos de casais, Casal, Amor casal


As estrelas hoje saíram

As estrelas hoje saíram
fora do seu leito azul
e vieram brilhar nas margens
dos meus olhos terrosos.

Com fúria de granizo
uma fumaça de luar
me embacia os olhos
num nevoeiro de borrasca ventosa…

Eu suporto frios intensos
e o branco polar
também pode ser pomba

Fechei minhas pálpebras
e as cisternas dos meus olhos
armazenaram mais águas.
e eles permaneceram límpidos,
sem uma lágrima,
com as raízes mergulhadas
no húmus milenário que me
alimenta.

Que me perdoem as flores,
mas eu hoje amei-as assim mesmo:
perdidas na cor e no balido dos
charcos, dançando ao vento
lágrimas vivas
confundidas com pinhais.

José Pastor Duarte Silva
(poeta moçambicano)

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

"Como sou – Sinopse" - José Pastor Duarte Silva

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Como sou – Sinopse

Eu sou como as algas:
necessito de luz e calor.
Eu sou como os pinheiros:
verde em todas as estações.
Sou fóssil de toda e qualquer era,
muito mais homem que fera.

Eu sou um vulcão:
dentro de mim há crateras e grutas,
cheias de estalactites
e estalagmites puras e brutas,
que nascem da filtração
do sangue e lava
de todas as minhas artérias em erupção.

O relevo do meu fundo marítimo
tem mais picos e cumes
que abismos e barrancos.
Os altibaixos internos
que embriagam o meu coração legítimo,
e as minhas entranhas montanhosas
vivem numa eterna bruma de cantos
indubitavelmente cheia de horizontes.

Dentro de mim há cascatas
e cachoeiras. É por isso
que meus lábios e maneiras
sempre falam espuma cristalina
que sai pelos rios
múltiplos da minha voz.

Também tenho portos fluviais
onde desaguam todo o meu
silêncio, todas as minhas
palavras, que aí flutuam,
e são tantas e da mesma linhagem!
Aí ficam, se quedam, e alimentam
a minha personagem primária,
eremita e selvagem.

O meu sangue é como o trigo:
panificável por excelência.
Eu vivo no pão impecável do
meu sangue.

A minha gênesis é o resultado
da condensação do «grand pás de quatre»
e criação que alegra e desperta
a natureza vivente e agreste:
terra, água, sol e semente.

José Pastor Duarte Silva*

*José António Pastor Duarte Silva (1954-1993) nasceu em Nampula (Moçambique). Foi professor, ativista cultural, encenador de teatro, poeta e contista. Si Silva e Broeiro Duarte São Pedro foram pseudônimos de José Pastor. A sua obra permanece inédita em livro.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

JOSÉ PASTOR DUARTE SILVA - Poema


José António Pastor Duarte Silva (1954-1993) nasceu em Nampula (Moçambique). Foi professor, ativista cultural, encenador de teatro, poeta e contista. Si Silva e Broeiro Duarte São Pedro foram pseudônimos de José Pastor. A sua obra permanece inédita em livro.

POEMA

Nessa madrugada acordei

com o meu peito em flor.

O meu lençol branco

onde ontem me acostei,

estava esverdeado de árvore

e de amor.

 
Gradeados por raízes
meus lábios febris e ardentes
beijaram o nevoeiro

e meus olhos feirais e quentes
saíram do viveiro do meu rosto

e na alvorada um olhar ficou posto.


Voltei ao quarto e a ti.
Escorreguei nos flancos

das colinas do teu corpo
porque chovias suor abundante.

A noite caiu por sobre a tua ausência.

Fiquei só, com o meu lençol branco,
Com tudo aquilo que sou

E mais o pranto!

In: Antologia da Nova Poesia Moçambicana.

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