segunda-feira, 8 de junho de 2026

"6×1: Versos para uma possível sexta-folga" - Henrique Morrone

 



6×1: Versos para uma possível sexta-folga



Quando cogitaram o fim da escala 6×1, os profetas reapareceram.


Bastou cogitar.


Vieram falar em caos.


Colapso.


Quebra de empresas.


Fuga de investimentos.


Ruína da civilização.


Pareciam preocupados.


Não com os trabalhadores.


Com a economia.


A economia, nesse caso, era uma palavra elegante para designar outra coisa.


Lucros.


Os argumentos eram conhecidos.


Já haviam circulado quando ampliaram o direito ao voto.


Quando proibiram o trabalho infantil.


Quando limitaram jornadas.


Quando criaram férias.


Quando instituíram descanso semanal.


Quando aprovaram o décimo terceiro salário.


Quando ampliaram direitos previdenciários.


Em todas essas ocasiões, anunciaram catástrofes.


Em todas elas, a história continuou.


Albert Hirschman chamou isso de retórica da reação.


O repertório muda pouco.


Mudam apenas os figurinos.


No século XIX, diziam que reduzir jornadas destruiria a indústria.


No século XXI, dizem que destruirá a competitividade.


No fundo, a disputa nunca foi sobre produtividade.


Era sobre excedente.


Sempre foi.


Durante muito tempo, bastou prolongar o dia.


Uma hora.


Duas.


Mais algumas.


O trabalhador produzia o equivalente ao próprio salário.


Depois continuava.


A diferença acumulava-se em outro lugar.


O relógio transformado em máquina de transferência.


Mais tarde vieram máquinas, tecnologias e novas formas de organização.


O tempo necessário para reproduzir salários encolheu.


A parcela apropriada pelo capital cresceu.


A lógica permanecia.


Mudavam apenas os mecanismos.


A escala 6×1 sempre respondeu essa disputa com clareza.


Seis dias para vender a força de trabalho.


Um para recuperar o corpo.


Às vezes nem isso.


Os defensores da escala falam em produtividade.


Alguns progressistas respondem da mesma forma.


Talvez jornadas menores elevem a eficiência.


Talvez não.


A produtividade raramente obedece ao calendário.


Ela acompanha investimentos.


Tecnologias.


O ciclo econômico.


Além disso, quase nunca se pergunta se custos maiores estimularão novas inversões produtivas.


Como se o único ajuste possível fosse preservar jornadas longas.


Como se o tempo dos trabalhadores devesse permanecer disponível até que a última margem de lucro estivesse protegida.


No fundo, a questão independe dessas respostas.


A disputa continuaria existindo.


Quem fica com o excedente?


Quem fica com o tempo?


Talvez seja por isso que a reação pareça tão intensa.


Não se discute apenas uma escala.


Discute-se a fronteira entre trabalho e vida.


No dia seguinte ao fim da escala 6×1, o sol nascerá normalmente.


Os mercados produzirão relatórios.


Os especialistas concederão entrevistas.


Os profetas anunciarão novos desastres.


E os trabalhadores terão algo raro.


Não riqueza.


Não poder.


Apenas algumas horas devolvidas.


Justamente a mercadoria que, desde o início, esteve em disputa.



Henrique Morrone

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