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domingo, 4 de dezembro de 2022

"Poema de Sete Faces" - Carlos Drummond de Andrade

 




Poema de Sete Faces

 

 



Quando nasci, um anjo torto


Desses que vivem na sombra


Disse: Vai, Carlos, ser gauche na vida



As casas espiam os homens


Que correm atrás de mulheres


A tarde talvez fosse azul


Não houvesse tantos desejos



O bonde passa cheio de pernas


Pernas brancas, pretas, amarelas


Para que tanta perna, meu Deus? Pergunta meu coração


Porém, meus olhos


Não perguntam nada



O homem atrás do bigode


É sério, simples e forte


Quase não conversa


Tem poucos, raros amigos


O homem atrás dos óculos e do bigode



Meu Deus, por que me abandonaste?


Se sabias que eu não era Deus


Se sabias que eu era fraco



Mundo, mundo, vasto mundo


Se eu me chamasse Raimundo


Seria uma rima, não seria uma solução


Mundo, mundo, vasto mundo


Mais vasto é meu coração



Eu não devia te dizer


Mas essa Lua


Mas esse conhaque


Botam a gente comovido como o diabo



 

Carlos Drummond de Andrade



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terça-feira, 11 de outubro de 2022

"Congresso Internacional do Medo" - Carlos Drummond de Andrade

 





Congresso Internacional do Medo

 

 



Provisoriamente não cantaremos o amor,


que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.


Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,


não cantaremos o ódio, porque este não existe,


existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,


o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,


o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,


cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,


cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,


depois morreremos de medo


e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

 



Carlos Drummond de Andrade



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terça-feira, 19 de abril de 2022

Dia do Índio é data 'folclórica e preconceituosa', diz escritor Daniel Munduruku





"Ao longo da nossa conversa, como o senhor prefere ser chamado: Daniel ou Munduruku?", questionou a BBC News Brasil ao entrevistado. "Pode chamar de Daniel ou de Munduruku. Como preferir. Só não chama de índio", disse, dando risada, o escritor. Doutor em educação pela Universidade de São Paulo e pós-doutor em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos, Daniel Munduruku defende que a palavra "índio" remonta a preconceitos - por exemplo, a ideia de que o indígena é selvagem e um ser do passado - além de "esconder toda a diversidade dos povos indígenas". Para ler sua entrevista clique aqui


Leia "Ações afirmativas para indígenas nas universidades públicas brasileiras" de Jefferson Belarmino de Freitas, Poema Portela, João Feres Júnior e Juliana Flor clicando aqui


Leia "Ladislau Dowbor: Sistema econômico liberal "não funciona"" clicando aqui


Leia "Liszt Vieira: A eleição e seus desafios" clicando aqui


Leia "A história e suas memórias incômodas de violência" de Luciana Brito clicando aqui


Leia "Matteo Pasquinelli: "Os algoritmos multiplicam os empregos precários"" clicando aqui


Leia "Filtros de selfie que afinam nariz e rosto incentivam racismo e cirurgias plásticas entre jovens" de Fabiana Moraes clicando aqui


Leia "Sergio Miceli: Drummond e o modernismo mineiro. A incontornável relação entre as elites políticas e os intelectuais modernistas" clicando aqui


segunda-feira, 21 de março de 2022

Dia mundial da Poesia

 






Poeta Gastão Cruz morre aos 80 anos




Gastão Cruz descreveu o verso como "zona proibida" e chegou a ver em "Escassez", título inicial do seu percurso, uma possível definição da sua poesia. O derradeiro livro, "Existência", surgido em 2018, que lhe deu, mais uma vez, o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (APE), traduz "uma poderosa reflexão sobre a vida, a memória, o envelhecimento e o espectro da morte", como escreve a editora Assírio & Alvim, na apresentação da obra. Para ler o texto completo clique aqui





Reinaldo Ferreira - 100 anos



Para ler o texto de Nelson Saúte sobre o poeta moçambicano Reinaldo Ferreira clique aqui





Haikai: a poética da sugestão



O haikai fotografa a insustentável leveza do instante que não vai se repetir. Para ler o texto de Jan Ceneck clique aqui






Drummond: a invenção de um poeta nacional pelo livro didático



Investigar o Drummond reconstruído (ou, como temos dito, “inventado”) pelo livro didático, a partir das permanências detectáveis na crítica e na historiografia literárias, permite supor que Literatura, que autores, que obras e que leitores a escola e a sociedade gostariam de ter, a despeito daqueles que efetivamente têm. Para ler a dissertação de Mestrado (255 págs.) de Maria Amélia Dalvi clique aqui


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Com açúcar, com afeto: uma polêmica insossa

 





Vejo com bons olhos o aceno que Chico fez ao feminismo, porém não ouso comparar esse tímido ato de um de nossos artistas mais engajados com outras vitórias que o feminismo teve no universo da música brasileira. Para ler o texto de Laura Luedy clique aqui





Falar de Drummond é uma tarefa complexa (...). Tal complexidade se deve não apenas à extensão de sua produção ininterrupta durante sete décadas, mas também à abrangência do seu universo temático, (...) à riqueza e à variedade dos seus mecanismos de composição poética”. Para ter acesso ao conteúdo completo do livro (168 págs.) de Maria Amélia Dalvi clique aqui


quarta-feira, 10 de abril de 2019

"O quarto em desordem" - Carlos Drummond de Andrade

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O quarto em desordem

Na curva perigosa dos cinqüenta
Derrapei neste amor. Que dor! Que pétala
Sensível e secreta me atormenta
E me provoca à síntese da flor

Que não se sabe como é feita: amor,
Na quinta – essência da palavra, e mudo
De natural silêncio já não cabe
Em tanto gesto de colher e amar

A nuvem que ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que a nuvem
e mais defeso, corpo! Corpo, corpo,

verdade tão final, sede tão vária,
e esse corpo solto pela cama,
a passear no peito de quem ama.

Carlos Drummond de Andrade


segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

"Para viver um grande amor" - Carlos Drummond de Andrade

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Para viver um grande amor

É preciso abrir todas as portas que fecham o coração.
Quebrar barreiras construídas ao longo do tempo,
Por amores do passado que foram em vão
É preciso muita renúncia em ser e mudança no pensar.
É preciso não esquecer que ninguém vem perfeito para nós!
É preciso ver o outro com os olhos da alma e se deixar cativar!
É preciso renunciar ao que não agrada ao seu amor...
Para que se moldem um ao outro como se molda uma escultura,
Aparando as arestas que podem machucar.
É como lapidar um diamante bruto... para fazê-lo brilhar!
E quando decidir que chegou a sua hora de amar,
Lembre-se que é preciso haver identificação de almas!
De gostos, de gestos, de pele...
No modo de sentir e de pensar!
É preciso ver a luz iluminar a aura,
Dando uma chance para que o amor te encontre
Na suavidade morna de uma noite calma...
É preciso se entregar de corpo e alma!
É preciso ter dentro do coração um sonho
Que se acalenta no desejo de: amar e ser amada!
É preciso conhecer no outro o ser tão procurado!
É preciso conquistar e se deixar seduzir...
Entrar no jogo da sedução e deixar fluir!
Amar com emoção para se saber sentir
A sensação do momento em que o amor te devora!
E quando você estiver vivendo no clímax dessa paixão,
Que sinta que essa foi a melhor de suas escolhas!
Que foi seu grande desafio... e o passo mais acertado
De todos os caminhos de sua vida trilhados!
Mas se assim não for...
Que nunca te arrependas pelo amor dado!
Faz parte da vida arriscar-se por um sonho...
Porque se não fosse assim, nunca teríamos sonhado!
Mas, antes de tudo, que você saiba que tem aliado.
Ele se chama TEMPO... seu melhor amigo.
Só ele pode dar todas as certezas do amanhã...
A certeza que... realmente você amou.
A certeza que... realmente você foi amada.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 15 de dezembro de 2018

"No corpo feminino, esse retiro" - Carlos Drummond de Andrade

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No corpo feminino, esse retiro

No corpo feminino, esse retiro
- a doce bunda - é ainda o que prefiro.
A ela, meu mais íntimo suspiro,
pois tanto mais a apalpo quanto a miro.

Que tanto mais a quero, se me firo
em unhas protestantes, e respiro
a brisa dos planetas, no seu giro
lento, violento... Então, se ponho e tiro

a mão em concha - a mão, sábio papiro,
iluminando o gozo, qual lampiro,
ou se, dessedentado, já me estiro.

me penso, me restauro, me confiro,
o sentimento da morte eis que adquiro:
de rola, a bunda torna-se vampiro.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

"Amor e seu tempo" - Carlos Drummond de Andrade


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Amor e seu tempo

Amor é privilégio de maduros
Estendidos na mais estreita cama,
Que se torna a mais larga e mais relvosa,
Roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
O prêmio subterrâneo e coruscante,
Leitura de relâmpago cifrado,
Que, decifrado, nada mais existe

Valendo a pena e o preço do terrestre,
Salvo o minuto de ouro no relógio
Minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
Depois de se arquivar toda a ciência
Herdada, ouvida. amor começa tarde

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 7 de outubro de 2018

Olhando para o futuro (ou para o presente?) através de três poemas

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Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Carlos Drummond de Andrade

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Era uma vez
uma mulher que
via um futuro grandioso
para cada homem
que a tocava.
Um dia
ela se tocou

Alice Ruiz

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Passado, presente, futuro

Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:
Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais.
Tão marcados de tempo e macaréus.

Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.

Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.

José Saramago

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

"No corpo feminino, esse retiro" - Carlos Drummond de Andrade

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No corpo feminino, esse retiro

No corpo feminino, esse retiro
- a doce bunda - é ainda o que prefiro.
A ela, meu mais íntimo suspiro,
pois tanto mais a apalpo quanto a miro.

Que tanto mais a quero, se me firo
em unhas protestantes, e respiro
a brisa dos planetas, no seu giro
lento, violento... Então, se ponho e tiro

a mão em concha - a mão, sábio papiro,
iluminando o gozo, qual lampiro,
ou se, dessedentado, já me estiro.

me penso, me restauro, me confiro,
o sentimento da morte eis que adquiro:
de rola, a bunda torna-se vampiro.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 5 de agosto de 2018

Livro de José Miguel Wisnik investiga o impacto da mineração na obra de Drummond

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'Maquinação do Mundo' parte de ponto de vista inédito após visita do ensaísta a Itabira. 

Para ler a entrevista de José Miguel Wisnik clique aqui

segunda-feira, 23 de julho de 2018

"Mimosa boca errante" - Carlos Drummond de Andrade

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Mimosa boca errante

Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.
Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?
Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando a líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.
Já sei a eternidade: é puro orgasmo.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 14 de julho de 2018

"Mas viveremos " - Carlos Drummond de Andrade

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Mas viveremos

Já não há mãos dadas no mundo.
Elas agora viajarão sozinhas.
Sem o fogo dos velhos contatos,
que ardia por dentro e dava coragem.

Desfeito o abraço que me permitia,
homem da roça, percorrer a estepe,
sentir o negro, dormir a teu lado,
irmão chinês, mexicano ou báltico.

Já não olharei sobre o oceano
para decifrar no céu noturno
uma estrela vermelha, pura e trágica,
e seus raios de glória e de esperança.

Já não distinguirei na voz do vento
(Trabalhadores, uni-vos...) a mensagem
que ensinava a esperar, a combater,
a calar, desprezar e ter amor.

Há mais de vinte anos caminhávamos
sem nos vermos, de longe, disfarçados
mas a um grito, no escuro, respondia
outro grito, outro homem, outra certeza.

Muitas vezes julgamos ver a aurora
e sua rosa de fogo à nossa frente.
Era apenas, na noite, uma fogueira.
Voltava a noite, mais noite, mais completa.

E que dificuldade de falar!
Nem palavras nem códigos: apenas
montanhas e montanhas e montanhas,
oceanos e oceanos e oceanos.

Mas um livro, por baixo do colchão,
era súbito um beijo, uma carícia,
uma paz sobre o corpo se alastrando
e teu retrato, amigo, consolava.

Pois às vezes nem isso. Nada tínhamos
a não ser estas chagas pelas pernas,
este frio, esta ilha, este presídio,
este insulto, este cuspo, esta confiança.

No mar estava escrita uma cidade,
no campo ela crescia, na lagoa,
no sítio negro, em tudo onde pisasse
alguém, se desenhava tua imagem,

teu brilho, tuas pontas, teu império
e teu sangue e teu bafo e tua pálpebra,
estrela: cada um te possuía.
Era inútil queimar-te, cintilavas.

Hoje quedamos sós. Em toda parte,
somos muitos e sós. Eu, como os outros.
Já não sei vossos nomes nem vos olho
na boca, onde a palavra se calou.

Voltamos a viver na solidão,
temos de agir na linha do gasômetro,
do bar, da nossa rua: prisioneiros
de uma cidade estreita e sem ventanas.

Mas, viveremos. A dor foi esquecida
nos combates de rua, entre destroços.
Toda melancolia dissipou-se
em sol, em sangue, em vozes de protesto.

Já não cultivamos amargura
nem sabemos sofrer. Já dominamos
essa matéria escura, já nos vemos
em plena força de homens libertados.

Pouco importa que dedos se desliguem
e não se escrevam cartas nem se façam
sinais da praia ao rubro couraçado.
Ele chegará, ele viaja o mundo.

E ganhará enfim todos os portos,
avião sem bombas entre Natal e China,
petróleo, flores, crianças estudando,
beijo de moça, trigo e sol nascendo.

Ele caminhará nas avenidas,
entrará nas casas, abolirá os mortos.
Ele viaja sempre, esse navio,
essa rosa, esse canto, essa palavra. 

Carlos Drummond de Andrade 

sábado, 19 de agosto de 2017

"O Tempo Passa? Não Passa" - Carlos Drummond de Andrade

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O Tempo Passa? Não Passa

O tempo passa ? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.
O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.
Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.
O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.
São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer a toda hora.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 19 de julho de 2017

"As sem-razões do amor" - Carlos Drummond de Andrade

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As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade



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