domingo, 2 de março de 2014

De José Pacheco a Florestan Fernandes: a absurda militarização de uma escola

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Criador da Escola da Ponte escreve a seu mestre e relata triste caso em Goiás. Mas frisa: “jamais deixarei de ser educador e ser humano rebelde”

Eu sei, meu amigo, que pode parecer inverossímil aquilo que te irei contar, mas crê ser a mais pura verdade.
Um governador de estado inaugurou uma escola construída no Padrão Século XXI, que custou quase três milhões (sic). Pouco tempo após a pompa e circunstância da inauguração, um jovem aluno foi morto a tiro dentro dessa (dita) escola modelo. A diretora disse que o rapaz tinha comportamento normal e boas notas. O porteiro prestou depoimento: “a Polícia Militar vem, ajuda, mas quando eles saem os marginais voltam”. Acrescentou que o colégio tinha encomendado uma barreira de proteção em volta do prédio onde os alunos estudam. Que um serralheiro colocaria as placas em volta da escola, “mas, antes de ficar pronto, infelizmente aconteceu essa tragédia”, disse. E tranquilizou os intranquilos, dizendo: “a Polícia Militar ficará na porta da escola entre os próximos 15 e 30 dias, até que o projeto de segurança seja implantado”.
Um superintendente da secretaria de educação averiguou as condições da infraestrutura de segurança e, peremptoriamente, afirmou: “um circuito de câmeras de monitoramento será instalado ao redor de toda a escola”. E a Polícia Militar, por sua vez, informou que fará rondas. Porém, apesar das garantias dadas por quem pode dá-las, poucos alunos apareceram na instituição na manhã seguinte. E uma mãe decidiu mesmo tirar o filho daquela escola, porque se cansou de ouvir os relatos do menino, que afirmou ter testemunhado o uso de drogas no local.
Para ler o texto completo de José Pacheco clique aqui

Morreu Alain Resnais, um inovador de 91 anos



Quando o júri do Festival de Berlim atribuiu a Alain Resnais por Aimer, Boire et Chanter, há duas semanas, o prémio Alfred H. Bauer para o filme da competição que abria novas direcções à arte cinematográfica, não faltou quem franzisse o sobrolho: um prémio de “inovação” a um cineasta de 91 anos que adaptava uma peça teatral de modo estilizadamente artificial?
Mas, para quem conhece bem a obra do realizador, falecido em Paris, no sábado, 1 de Março, o prémio Alfred H. Bauer — entregue em anos anteriores, por exemplo, a Miguel Gomes por Tabu — fazia todo o sentido.
Desde a curta-metragem sobre os campos de concentração Noite e Nevoeiro (1955) e a sua lendária estreia na longa com Hiroshima Meu Amor (1959) até às experiências formais e lúdicas de obras mais recentes como É Sempre a Mesma Cantiga (1997), Corações (2006) ou As Ervas Daninhas (2009), Resnais fez sempre questão de olhar para as coisas sob um novo ângulo, de procurar rumos inesperados e originais. De ir à aventura.
Para ler o texto completo de Jorge Mourinha clique aqui
Leia “Fazendo filmes-poesia sobre a memória, Resnais fundou o cinema moderno” de Thiago Stivaletti clicando aqui

A revolução democrática mundial

A fundação Friedrich Ebert Stiftung acaba de publicar o relatório World Protests 2006-2013 escritos por quatro pesquisadores ( Isabel Ortiz, Sara Burke, Mohamed Berrada e Hernán Cortés), que apresenta a pesquisa mais extensa e detalhada que foi escrito até esta data sobre os principais movimentos cidadãs de protesto que existiram e continuam a existir em um número de países que representam 92% da população mundial (843 protestos em 84 países) no período 2006-2013. É sem dúvida um dos relatos mais interessantes publicados por um grupo de especialistas em movimentos políticos e sociais de vários países. O estudo é detalhado e relevante, e poderia ter sido intitulado A análise de agitação social no mundo." Complementa muitos outros estudos que estão sendo publicados em revistas como a Monthly Review dos EUA, entre outros, que questionam a sabedoria convencional que produz e promove em mídias mais antigas no mundo ocidental sobre os protestos. 
Alguns dos resultados desses estudos merecem destaque especial  e podem ser lidos no texto de Vicenç Navarro clicando aqui

"O clitóris não se estuda em anatomia porque não intervém na reprodução"

O clitóris é um órgão muito poderoso, mas numa cultura patriarcal como a nossa é difícil que lhe seja reconhecido esse poder. O objetivo é não só invisibilizar o clitóris, senão a sexualidade das mulheres e a sua maior capacidade para sentir e viver o prazer. Olalla Rodil entrevista María Lameiras, coautora do guia "O clítoris e os seus segredos".
Para ler a entrevista clique aqui

"Mas Afinal, A Memória é de Quem? Histórias Orais e Modos de Lembrar e Contar" - Antoinette Errante

Recentemente, a pesquisa em ciência social tem dado mais atenção às intrincadas relações
entre biografia e história. Na pesquisa educacional, esse foco resultou numa explosão do
interesse na narrativa pessoal como uma articulação da experiência individual e coletiva com
os mundos social, político e cultural da educação. Esse interesse na narrativa pessoal deu, por
conseqüência, proeminência ao trabalho em história oral. O crescimento da atração intuitiva
das narrativas pessoais, no entanto, ganhou uma complacência metodológica. O que significa
coletar e analisar narrativas pessoais? Como os narradores verbalizam suas narrativas e narram
sua voz? Que papel exerce o jogo das entrevistas no desdobramento dessas narrativas? O que
significamessas questões no contexto das histórias orais, que são narrativas em que a dinâmica
entrevistador-narrador também é mediatizada pela natureza da memória? Este artigo examina o
que a autora aprendeu sobre histórias orais das narrativas que a autora pôde - e não pôde -
coletar.
Para ler o texto completo de Antoinette Errante clique aqui

sábado, 1 de março de 2014

"O giz" - José Craveirinha


O giz

Giz
    de unhas
               caligrafando
                               na lousa
                                          do meu dorso.

Assumo
           tuas
                 unhadas
                            gizando
                                       em minha
                                                     lousa
                                                            arrepios
                                                                  no velho torso
Tudo
      em termos
                    de retórica
                                    e esta síntese
                                                         em falso.

José Craveirinha*


*A poesia reservou a José Craveirinha um lugar de honra não apenas na História da Literatura de Moçambique, mas também na História da Literatura de Língua Portuguesa. Daí ter sido galardoado, em 1991, com o Prêmio Camões além de uma dezena de outros prêmios internacionais. Como jornalista, colaborou em vários periódicos moçambicanosFoi presidente da Associação Africana na década de 1950Esteve preso entre 1965 e 1969 por fazer parte de uma célula da 4.ª Região Político-Militar da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique)Foi o primeiro presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos, entre 1982 e 1987. Em sua homenagem, a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), em parceria com a HCB (Hidroeléctrica de Cahora Bassa), instituiu em 2003 (ano de seu falecimento), o Prêmio José Craveirinha de Literatura
"Escrever poemas, o meu refúgio, o meu País também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse País, muitas vezes, altas horas a noite" afirma Craveirinha.

ENTREVISTA com o premiado diretor de cinema britânico Ken Loach

Kenneth "Ken" Loach é um cineasta britânico nascido em 17 de junho de 1936. Filho de operários, dedicou sua obra cinematográfica à descrição das condições de vida da classe operária. Artista que usa o cinema como instrumento incômodo de denúncias e contra a imposição da falta de alternativas, o cineasta político Ken Loach imprime sua assinatura sobre seus trabalhos, uma marca que só os grandes realizadores são capazes de deixar. Seus 50 anos de carreira e 58 filmes foram celebrados no Festival Internacional de Berlim deste ano. “Comecei no início dos anos 60. Trabalhei em um momento em que as pessoas eram mais conscientes politicamente”, relembra.
Seus personagens são lutadores, homens simples, comuns, muitas vezes intérpretes de suas próprias vidas, porque as histórias que ele conta estão sempre transpondo a fronteira da realidade. Por isso, transbordam também humor, alegria e otimismo. Diferentemente de outros diretores, Loach prefere filmar em ordem cronológica. Do ponto de vista dos atores, eles podem aprender com a cena que fizeram ontem para atuar na que farão hoje, porque segue a história. Você aprende com a cena que fez hoje a entender como o personagem está se sentindo na que vai fazer amanhã”, avalia, ressaltando que este método minimiza os problemas de continuidade.
Segundo ele, fazer cinema fora dos padrões comerciais é sempre uma luta, já que o mercado é dominado por grandes indústrias e estúdios. “É neste ponto que os políticos europeus deveriam intervir. Eles deveriam proteger os cinemas de diferentes países da Europa e também em todo o mundo. Temos que ver filmes da América Latina, do extremo oriente, da Índia, de todo o mundo. Mas, para fazer isso acontecer, você precisa de intervenção política, porque o mercado reduz a escolha”, destaca Ken Loach.Os temas com que o premiado diretor inglês trabalha caíram em desuso, como a organização coletiva em defesa de interesses comuns, mas parecem despertar uma enorme curiosidade entre os jovens cineastas do século XXI. “Nós fizemos alguns filmes de forma diferente. Sempre é uma jornada rumo ao desconhecido. Você nunca sabe como vai ser até terminar, é um processo em desenvolvimento. É uma questão de erros e acertos”, afirma o cineasta.
Veja a sua entrevista clicando aqui

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