sábado, 4 de abril de 2026

"Ao longo da muralha" - Mário Cesariny

 



Ao longo da muralha



Ao longo da muralha que habitamos


Há palavras de vida há palavras de morte


Há palavras imensas, que esperam por nós


E outras frágeis, que deixaram de esperar


Há palavras acesas como barcos


E há palavras homens, palavras que guardam


O seu segredo e a sua posição




Entre nós e as palavras, surdamente,


As mãos e as paredes de Elsenor




E há palavras e nocturnas palavras gemidos


Palavras que nos sobem ilegíveis à boca


Palavras diamantes palavras nunca escritas


Palavras impossíveis de escrever


Por não termos connosco cordas de violinos


Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar


E os braços dos amantes escrevem muito alto


Muito além da azul onde oxidados morrem


Palavras maternais só sombra só soluço


Só espasmos só amor só solidão desfeita




Entre nós e as palavras, os emparedados


E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.




Mário Cesariny

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