segunda-feira, 1 de abril de 2013

Em 1964, havia o Ipes e o Ibad. Hoje, o Millenium

O economista Cristiano Costa foi recebido em fevereiro pelo pessoal do grupo A Tarde, em Salvador. A companhia de comunicação, que tem provedor e portal na internet, agência de notícias, jornal impresso, emissora de FM, gráfica, reuniu seus profissionais para servirem-se de uma palestra da série ‘Millenium nas Redações’.
Blogueiro e professor de uma universidade capixaba chamada Fucape Business School, Costa é também colaborador cativo do Instituto Millenium, articulador desses eventos destinados a “aprimorar a qualidade da imprensa no Brasil”.
A base de sua explanação são seus artigos reproduzidos no site do instituto, em que critica duramente a política econômica do governo e ataca sem rodeios o ministro da Fazenda, Guido Mantega.
Em um deles, cita o programa ‘Minha Casa, Minha Vida’ como um dos responsáveis por inflacionar o setor imobiliário. Isso num ambiente em que até os preços de imóveis de alto padrão dispararam.
As pessoas estão mais seguras no emprego e foram comprar, a queda dos juros levou mais gente a ter acesso a crédito, ou mais gente a tirar dinheiro de aplicações financeiras para investir em imóveis. Há muitos fatores em jogo, mas lá vai o programa federal destinado a famílias de baixa renda pagar o pato da especulação.
Outras redações de jornais e revistas foram brindadas pelo Millenium com palestras sobre assuntos variados, da reforma do Judiciário à assustadora “crise econômica”.
O currículo dos palestrantes, colaboradores do instituto, explica o objetivo real das palestras: consolidar no meio jornalístico o papel oposicionista da mídia brasileira.
Há algum tempo os ambientes de redação eram conhecidos por ter profissionais críticos, independentes, e o direcionamento da informação era resultado da sintonia dos editores com os donos dos veículos.
Não era incomum a conclusão do jornal ou da revista acabar em atrito entre repórter e superiores. Agora, os donos dos veículos preferem formar “focas” que já cheguem às redações comprometidos com suas crenças.
Essas crenças, recheadas de interesses políticos e econômicos, vêm sendo difundidas de maneira afinada pelos meios de comunicação reunidos no Millenium. Resultado concreto desse trabalho pôde ser visto neste início de ano.
Três assuntos, alardeados como ameaças ao país, ocuparam as manchetes dos grandes jornais e foram amplificados pelo rádio e pela TV: apagão, inflação e crise na Petrobras.
Além do noticiário parcial, analistas emitiam previsões catastróficas. Como elas não se confirmavam, o assunto era esquecido e logo substituído por outro.
Para ler o artigo completo de Laurindo Lalo Leal Filho clique aqui

"Não devemos respeitar crenças contrárias ao consenso científico", diz biólogo britânico

Fila dando volta no quarteirão. Parecia estreia de um filme de Hollywood.
Tudo para ver a palestra de Richard Dawkins, 72, talvez o ateu mais famoso do mundo, biólogo, tipo raro de intelectual híbrido que se comunica bem com o grande público e com os eruditos dos centros de pesquisa de ponta.
Dawkins alcançou notoriedade tanto nos círculos acadêmicos dos departamentos de biologia quanto no delicado debate público sobre o papel das religiões no mundo contemporâneo.
Após a publicação do livro "O Gene Egoísta", Dawkins ganhou evidência na academia ao deslocar o foco dos estudos em biologia evolutiva dos grupos e organismos para o estudo dos genes.
Segundo o biólogo, quanto mais parecidas duas espécies, maior a tendência de se comportarem de forma cooperativa -o que explicaria em parte tendências altruístas entre seres geneticamente semelhantes.
Ironicamente, tais pendores altruístas viriam do chamado "egoísmo dos genes", uma tendência biológica das espécies de quererem espalhar seus genes.
Dawkins atingiu o grande público ao atacar a noção de um criador do cosmos onisciente e onipotente.
No livro "O Relojoeiro Cego", Dawkins argumenta que a suposta perfeição da natureza e o aparente design que se observa no mundo podem ser explicados, ainda que parcialmente, por meio da biologia evolutiva.
Com "Deus, um Delírio", o cientista britânico nascido em Nairobi (Quênia) se tornou best-seller, ao ampliar suas críticas às religiões em geral e defender que não há necessidade de se conhecer o pensamento religioso ou ter qualquer conexão com entidades divinas para se viver uma vida moralmente digna e eticamente responsável.
Mais recentemente, o cientista tem se dedicado a viajar o mundo para debater com autoridades religiosas. Boa parte do material gravado abastece os diversos documentários dos quais o cientista participou.
Figura polêmica, Dawkins tem provocado a admiração da comunidade leiga ao pregar o entusiasmo pelo pensamento livre e não dogmático; e também a ira de muitos líderes religiosos por sua crítica impiedosa ao criacionismo -- tese que rejeita a evolução das espécies -- e, ao mesmo tempo, sua apologia do ateísmo.
Apesar do pensamento sofisticado, agudo e ferino, Dawkins pareceu bastante afável, brincalhão e interessado nas ideias alheias.
Foi no dia seguinte à palestra de Dawkins para mais de 1.500 pessoas numa pequena sala sala da Universidade da Pensilvânia, no mês passado, que esse pop star do ateísmo no mundo concedeu à Folha a entrevista que pode ser lida clicando aqui

sexta-feira, 29 de março de 2013

Drogas: a lei medieval em debate no Congresso e como enfrentá-la

Está para ser votado na Câmara dos Deputados o projeto de lei 7663, de autoria do deputado Osmar Terra (PMDB-RS), considerado por muitos especialistas em psicoativos como um tremendo retrocesso. Punição aos usuários, reforço do modelo manicomial de segregação e desrespeito aos direitos humanos, implantação do denuncismo vazio em escolas por suspeita de uso de drogas, aumento de penas sem um debate mais amplo. Segue, assim, o padrão das políticas públicas brasileiras: aumentar a punição ao invés de instituir o debate e meios de prevenção.
Mauricio Fiore, antropólogo, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP), é autor de diversos trabalhos sobre uso de substâncias psicoativas e um dos maiores especialistas brasileiros no tema.
Para ler a entrevista de Mauricio Fiore clique aqui

Como os ingleses reagiram aos abusos da mídia

Quatro meses depois da publicação do Relatório Leveson (ver “Alguma lição para o Brasil?“), os três principais partidos ingleses – Conservador, Trabalhista e Liberal Democrata – anunciaram em 18/3 o fechamento de um acordo para regulação da imprensa (jornais, revistas e internet) no Reino Unido.
A nova instância, independente do governo e das empresas de mídia, substituirá a agência autorreguladora Press Complaints Commission, formada por integrantes da própria imprensa, que o Relatório Leveson considerou incapaz de coibir os crimes cometidos pela imprensa britânica além de funcionar, na prática, como um lobby dela mesma, a imprensa.
Para ler o atigo completo de Venício A. de Lima clique aqui

O laboratório de uma nova cultura política

Liberdade, união, igualdade, autonomia, possibilidade de errar. Com a experiência de quem ajudou a criar o Fórum Social Mundial – cuja 12ª edição termina neste sábado, 30, na Tunísia –, e uma visão que atravessa décadas de participação em movimentos políticos, o arquiteto e ativista Chico Whitaker fala sobre os valores que sustentam uma nova cultura política.
“Novas formas de organização dos que querem mudar o mundo implicam ter redes funcionando, autonomia de todos os membros e um sistema decisório por livre consenso”, diz ele. “A rede é um processo, uma ligação horizontal entre as pessoas em que a comunicação se dá entre todos e a adesão a uma proposta se faz por convicção — não por hierarquia, disciplina ou ordem”, diz. “A novidade é exatamente a possibilidade de lançar convites no ar e ver quem vem.”
Para Chico, a cultura política que os Fóruns Sociais expressam é anterior a eles e está também presente em fenômenos de grande repercussão global, como a Primavera Árabe, e movimentos como os dos Indignados e o “Occupy”.
Para ler a entrevista de Chico Whitaker clique aqui

quinta-feira, 28 de março de 2013

O romance fantástico de Marcos Peres

Em 2010, em um texto sobre a produção literária maringaense publicado no site do projeto Contos Maringaenses, escrevi que Marcos Peres era “um escritor do fantástico em ascensão”. Nos últimos três anos, Peres tem sido responsável por criativas histórias publicadas no Contos. Alguns desses contos foram republicados em sites de cultura independente, como o Nego Dito. Seus textos, porém, têm circulado apenas entre um pequeno círculo intelectual de Maringá e região, formado por escritores e críticos da pacata Space City (utilizando aqui a expressão do Nelson Alexandre, um dos nomes fortes do norte do Paraná). De fato, há toda uma produção literária alternativa circulando por meios virtuais e físicos, afastada dos veículos editoriais tradicionais.
Entretanto, esse perfil underground de Marcos Peres indubitavelmente vai mudar. Nessa semana, ele foi contemplado com o Prêmio Sesc de Literatura, na categoria melhor romance. Dentre os 37 finalistas, a obra O Evangelho Segundo Hitler foi considerada a mais criativa e estimulante, arrebatando a premiação nacional. Como resultado da premiação, o livro será publicado pela Editora Record. Em muito breve, os leitores brasileiros terão o prazer de conhecer o estilo de escrita do jovem Peres.
A notícia do prêmio do Sesc foi divulgada pelo crítico literário José Flauzino Alves, que, além de revisar o manuscrito de O Evangelho Segundo Hitler, também analisou os originais de Nihonjin, de Oskar Nakasato, vencedor do prêmio Jabuti de 2012. Na noite de sábado (16/03), Flauzino – um crítico que tem acompanhado de perto os escritores do Contos Maringaenses – escreveu: “Honradamente, o prêmio é merecido pelo Marcos. Dono de uma imaginação prodigiosa, dá-nos uma trama inteligente. O livro surpreende. E mais: o cara nem 30 anos tem. Está só começando. Sua literatura há de amadurecer”.
Os elogios de Flauzino não são exagerados. A imaginação de Marcos é realmente prodigiosa. Aliás, o título do livro premiado é genial. Quem não ficaria curioso com o conteúdo de um livro com o título O Evangelho Segundo Hitler? A obra de Marcos Peres, entretanto, não possui semelhança com a polêmica publicação de José Saramago. O livro homenageia os escritores que brincam com elementos fantásticos, como Umberto Eco e Jorge Luis Borges, através de uma trama embevecida em teorias conspiratórias que une dois personagens contemporâneos.
Entrevistei o escritor Marcos Peres pela internet nesta noite de sábado. Neste breve bate-papo, ele responde algumas questões sobre suas influências, sobre o livro premiado e sobre a produção literária de Maringá. A conversa mostra a honestidade intelectual de Peres e seu sentimento de gratidão com a criação colaborativa proporcionada pela literatura.
Para ler a entrevista de Marcos Peres clique aqui

Notas sobre «Caderno de Memórias Coloniais»

O livro de Isabela Figueiredo, Caderno de Memórias Coloniais, tem uma forte dimensão pessoal, mas enquadra-se nas análises profundas – que Portugal tem pretendido ignorar – sobre o “nosso colonialismo inocente”1, pensado por Eduardo Lourenço, ficcionalmente trabalhado por Hélder Macedo no romance Partes de África, 1991, e por António Lobo Antunes, em O Esplendor de Portugal, de 1997. Em 1991, Partes de África constituía um livro pioneiro neste aspecto, “inclassificável” na ficção portuguesa de então e, à semelhança, de Caderno, de Isabela Figueiredo, era fundado sobre um diálogo póstumo com a figura do pai, transfigurada ora na nação portuguesa, ora na própria imagem do colonialismo português em África. Mais tarde, O Esplendor de Portugal trazia a discussão sobre a questão identitária do colonizador e do ex-colonizador, não tanto a partir da análise das relações desiguais de poder, como em Caderno de Isabela Figueiredo, mas a partir da fracturada relação de pertença/ posse dos sujeitos brancos à terra de Angola outrora colonizada, deixando-os a todos sem lugar. Resumindo, todos estes livros mostram, a partir de diferentes posicionamentos, o quanto a descolonização não tinha sido apenas um movimento a sul, que emancipou os países colonizados, mas também um movimento que atingiu radicalmente o continente colonizador que foi a Europa e, no caso sob análise, Portugal.
Para ler o texto completo de Margarida Calafate Ribeiro clique aqui

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