Marcelo Gleiser: Mapeando a realidade: em busca de uma perfeição inatingível

Mapeando a realidade:
em busca de uma perfeição inatingível
Marcelo
Gleiser*
A ciência nunca poderá chegar a um estado
final de conhecimento considerado completo
12.ago.2018
Como determinar se um mapa é bom? O escritor argentino Jorge
Luis Borges, em uma de suas brilhantes alegorias, resumiu
a situação em um conto de apenas um parágrafo, "Sobre o Rigor
na Ciência":
"(…) Naquele império,
a arte da cartografia alcançou tal perfeição que o mapa de uma única província
ocupava uma cidade inteira, e o mapa do Império, uma província inteira. Com o
tempo, estes mapas desmedidos não bastaram, e os colégios de cartógrafos
levantaram um mapa do Império que tinha o tamanho do Império e coincidia com
ele ponto por ponto. Menos dedicadas ao estudo da cartografia, as gerações
seguintes decidiram que esse dilatado mapa era inútil e não sem impiedade
entregaram-no às inclemências do Sol e dos invernos. Nos desertos do oeste
perduram despedaçadas ruínas do mapa habitadas por animais e por mendigos; em
todo o país não há outra relíquia das disciplinas geográficas."
O único mapa perfeito é o que reproduz em todos os detalhes o que está
representando, o território. Daí o paradoxo: um mapa que é tão grande quanto o
território que representa não tem nenhum valor. Um mapa perfeito é inútil.
Note o título do conto de
Borges, "Sobre o Rigor na Ciência". Podemos interpretar a ciência
como um mapa, como uma representação de como vemos a natureza (o território).
Neste caso, Borges está criticando cientistas que acreditam, inocentemente, que
o que fazem é produzir um mapa perfeito da realidade.
A analogia é bem apropriada, dado que captura tanto os objetivos
quanto as frustrações da pesquisa científica: queremos aprender o máximo
possível sobre o mundo e traduzir o que aprendemos em um mapa que outros podem
ler. Quanto mais aprendemos, mais detalhado fica o mapa. Entretanto, como o
filósofo francês Bernard Le Bovier de Fontenelle já sabia em 1686, podemos ver
apenas uma fração do que existe. Por consequência, qualquer mapa que produzimos
é necessariamente incompleto.
Vemos, aqui, uma tensão
entre nossa curiosidade de sempre querer saber mais e nossa inevitável miopia,
que nos impede de ver melhor. Esta tensão não é má; é ela que inspira nossa
criatividade e inventividade. Nossos instrumentos científicos são ferramentas
de exploração, que usamos para ampliar nossa visão do mundo, o que chamo de
amplificadores do real. Da mesma forma que mapas evoluem quando aprendemos mais
sobre a geografia terrestre, nossa compreensão científica da natureza evolui
quando podemos explorá-la mais profundamente com nossos instrumentos.
O perigo, como Borges nos
alerta em seu conto, é que nossa ambição pode ir contra nossos objetivos. Sem
uma reflexão maior, a necessidade de produzir mapas cada vez mais precisos da
realidade, com a intenção de chegar ao mapa final, a descrição perfeita do
território, é uma forma de cegueira. Borges, que ficou cego devido a cataratas
intratáveis na época, sabia disso melhor do que a maioria. Mesmo com visão
plena, muito do mundo permanece oculto.
Pela sua própria natureza,
a ciência, em qualquer de suas disciplinas, nunca poderá chegar a um estado
final de conhecimento considerado completo. Da mesma forma que, na prática, é
impossível catalogar todos as espécies de insetos e de fungos no planeta, nunca
podemos ter certeza de que nossa descrição das interações entre as partículas
subatômicas de matéria é, de fato, final.
No caso dos insetos e dos
fungos, não só é impossível localizar todos eles na vastidão da superfície e
subsolo terrestre como devemos considerar que, durante o tempo que precisamos
para levantar os dados, algumas espécies vão desaparecer, enquanto outras
sofrerão mutações e consequentes transformações. O projeto com esse tipo de
objetivo é elusivo, fato que deveria tanto inspirar e motivar mais estudos
quanto despertar uma boa dose de humildade.
No caso das partículas
elementares, existe sempre a possibilidade de que alguma escape aos nossos
detectores e algoritmos de busca. Nunca podemos ter certeza de que a rede que
estamos usando é fina o suficiente para capturar todas as partículas pela
simples razão que nunca poderemos ter certeza de que sabemos tudo o que existe
para ser capturado!
Um mapa serve um propósito
preciso: guiar a pessoa do ponto A ao ponto B. Um mapa eficiente é aquele que
faz isso deixando de lado todos os detalhes irrelevantes. Essa é a função dos
modelos matemáticos que usamos em ciência, representações dos aspectos
essenciais da realidade que queremos estudar que deixam de fora o que não é
necessário. Existe economia na simplicidade.
Pensando na ciência como um
mapa e na natureza como o território, Borges nos ensina algo precioso. Devemos
nos orgulhar dos mapas que fazemos do mundo, tentando sempre melhorá-los.
Porém, devemos nos lembrar que todo mapa é limitado, fornecendo informação
incompleta do território que mapeia. Vemos o mundo com olhos estritamente
humanos, e nossos mapas imperfeitos são um reflexo disso.
Fonte:
Aqui
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