quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Praticando gestos solidários


Não é preciso esquecer quem somos, mas é preciso entender quem são todos os outros partícipes de um mundo tão controverso. É preciso ter a percepção de que a presença de outros seres tão vivos nos obrigará a ter uma permanente atitude de complementaridade.
Será tudo isso uma utopia? Não sabemos...mas se for, para que lutamos, vivemos, amamos, admiramos, queremos? A resposta estará na qualidade de nossa humanidade diante de qualquer um que nos peça, que sofra, que desentenda, que se desequilibre, que chore. Imperfeitos, somos personagens em carência diante de diferentes situações do cotidiano, e, em conseqüência, precisamos urgente aprender a multiplicar, nunca a dividir! Alguns chamarão esse movimento de cooperação; aqui, chamaremos de solidariedade, complemento de nossos objetivos pessoais e coletivos por comprometimento, e este deve ser intencional, justo e base do princípio do respeito mútuo.
Sofremos muito com uma tradição individualista que corrompeu este e outros gestos de amor ao próximo porque sua dinâmica acontece pela aceitação de clichês, esteriótipos, expressões do senso comum etc. Isso é mais fácil! Isso é mais confortável! Embotamos nossas percepções e sentidos sobre e com o Outro por desentendermos sua realidade. Fomos condicionados e, por lógica, nos tornamos condicionadores de nós mesmos! Fomos limitados e limitantes! Estamos cegos e surdos às imagens e aos gritos dos necessitados e carentes, pela rotina da vida. Estamos esvaziados de ética, animalizados e vendo a felicidade “rolar ladeira abaixo”, por pura falta de tato, de abraço, de compaixão e de humildade.
Gestos de amor são gestos de parceria, de estímulo, de autoconhecimento e de ajuda mútua, sem a intenção de destruir as individualidades. Logo a necessidade maior é, pela solidariedade, reconhecer o potencial humano, sem frustrações, imposições, cobranças, exigências, mágoas e/ou tristezas de maneira a conquistarmos mais adeptos a este movimento e a resgatar mais pessoas à cena de uma realidade bem menos ultrajante. Não precisamos das correspondências e nem das “mentiras sinceras”, precisamos de pequenas revelações do mistério que é o Outro e suas necessidades para ampliarmos e amplificarmos nossas ações de ajuda. Assim permaneceremos aprendendo e ensinando ilimitadamente “tudo o que houver [de bom] nessa vida”.
Então, solidarizar-se é ampliar a constituição do “eu” no sentido de um “nós” forte, robusto e impermeável, e libertar a ambos de todo entrave social e pessoal através do entendimento e da proximidade. A relação solidária suspende autocensuras e autojustificações e nos torna seres antenados com o processo de crescimento e conquista do mundo do outro com o outro, sem expectativas fúteis de resultados concretos e/ou de um fim. Precisamos do processo e dos procedimentos de carinho, alegria e... silêncio. Só um pouquinho, vez por outra...
Todo gesto de solidariedade age como desmistificação das certezas absolutas e como promessa de diluição dos variados sofrimentos próprios e alheios. É a partilha, o respeito (sem temor ou pura obediência), a atenção integral a alguém, a ação em conjunto, daí emergirão, naturalmente, valores essenciais como amor, paz, liberdade, harmonia, equilíbrio, ética e respeito. Não há bondade nisso! Há a vontade de incluir o máximo de pessoas possíveis num movimento evolutivo generalizado em que a individualidade de ambas as partes seja o foco, a premissa mais importante. Base de tudo isso? Reciprocidade!
Os horizontes dos caminhos tornam-se mais belos e mais desejáveis quando, autenticamente, compartilhamos e participamos dos passos a serem dados pelos excluídos em busca do mistério que é viver a vida com dignidade. E isso não é uma qualidade que se tem ou não se tem, mas uma qualidade que se aprende e se ensina partindo das mais variadas condições sociais ou pessoais.
Tem dúvidas sobre o que acima nos afirma Claudia Nunes? Veja no vídeo aqui, alguns pequenos/grandes gestos de solidariedade em momentos do cotidiano em uma cidade, que até pode ser aquela em que você vive.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Nós estamos aqui: o Pálido Ponto Azul - Carl Sagan

Este emocionante texto de Carl Sagan nos faz pensar sobre o que realmente importa na vida.
“Devido ao reflexo da luz do sol na nave espacial, a Terra parece estar pousada num raio de luz, como se nosso mundo tivesse um significado especial”. Mas é um acidente de geometria óptica. O sol emite sua radiação eqüitativamente em todas as direções. Se a foto tivesse sido tirada um pouco mais cedo ou um pouco mais tarde, nenhum raio de sol teria dado mais luz à Terra.
Deste ponto distante de observação, a Terra talvez não apresente nenhum interesse especial. Para nós, no entanto, ela é diferente.
Olhem de novo para aquele ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, todos os que conhecemos de quem ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas.
Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, “superastros”, “líderes supremos”, todos os santos e pecadores da história de nossa espécie, ali - num grão de poeira suspenso num raio de sol.
A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pensem nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperadores para que, na glória do triunfo, pudessem ser os senhores momentâneos de uma fração deste ponto. Pensem nas crueldades infinitas cometidas pelos habitantes mal distinguíveis de algum outro canto em seus freqüentes conflitos, em sua ânsia de recíproca destruição, em seus ódios ardentes.
Nossas atitudes, nossa pretensa importância, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no universo, tudo é posto em dúvida por este ponto de luz pálida. O nosso planeta é um pontinho solitário na grande escuridão cósmica circundante. Em nossa obscuridade, no meio de toda essa imensidão, não há nenhum indício de que, de algum outro mundo, virá socorro que nos salve de nós mesmos.
A Terra é, até agora, o único mundo conhecido que abriga a vida. Não há nenhum outro lugar, ao menos em futuro próximo, para onde nossa espécie possa migrar. Visitar, sim. Estabelecer-se, ainda não. Goste-se ou não, no momento a Terra é o nosso posto.
Tem-se dito que Astronomia é uma experiência que forma o caráter e ensina humildade.
Talvez não exista melhor comprovação das loucuras da vaidade humana do que esta distante imagem de nosso mundo minúsculo. “Para mim, ela sublinha a responsabilidade de nos relacionarmos mais bondosamente uns com os outros e de preservarmos e amarmos o pálido ponto azul, o único lar que conhecemos.”
Carl Sagan - (de “Um pálido ponto azul”, 1994).
Se preferir, assista ao vídeo, narrado pelo próprio Sagan, com uma emocionante homenagem a esse grande divulgador da ciência.

Filme "Le Havre" - Otimismo em tempos de crise

Por um lado, Le Havre apresenta o mesmo estranhamento de todos os filmes anteriores do diretor finlandês: luzes artificiais, atores voluntariamente inexpressivos, diálogos entonados como discursos políticos, ações mínimas, música onipresente. Para os fãs de um cinema de estranhamento, esta obra apresenta o reconforto de se encontrar exatamente as escolhas típicas do diretor – e a possível frustração de não se encontrar nada além disso.
Por outro lado, este filme é um conto, algo curioso em pleno contexto de crise econômica, pessimismo social (os franceses acabaram de ser classificados como os mais pessimistas do mundo em relação ao futuro do país) e durante a época de Natal. Le Havre talvez não possa ser considerado como um conto de Natal propriamente dito, pela ausência deste período do ano na história, mas está presente o tradicional otimismo exagerado e ingênuo.
Para ler o artigo completo e ver o trailer clique aqui 

A cultura muito mais que digital

Termo novo e amplo, o conceito de cultura digital capta e reflete praticamente todas as transformações características da Sociedade da Informação. Se estrutura e se dissemina em redes, ganha potência com os instrumentos tecnológicos, abre espaço para a colaboração e estimula a interlocução direta entre todos os atores da cadeia de produção de bens culturais – sejam obras materiais ou patrimônios imateriais. “A cultura digital é uma transversalidade”, explica o ativista Rodrigo Savazoni, um dos organizadores do Festival de Cultura Digital, realizado em dezembro, no Rio de Janeiro. Nesta entrevista, Savazoni traça um panorama das iniciativas de cultura digital no Brasil e chama atenção para o vigor do movimento, que sofre um baque com as mudanças de rumo do Ministério da Cultura: “É um movimento sólido, enraizado nas comunidades. Mesmo com o retrocesso no MinC, muitas iniciativas de cultura digital estão estruturadas para enfrentar qualquer situação, até porque as pessoas fazem porque amam, porque acreditam”. Leia a entrevista a Rodrigo Savazoni aqui

O excesso de informação provoca amnésia - Entrevista a Umberto Eco

O escritor e semiólogo Umberto Eco vive com sua mulher em um apartamento duplo no segundo e terceiro andar de um prédio antigo, de frente para o palácio Sforzesco, o mais vistoso ponto turístico de Milão. É como se Alice Munro morasse defronte à Canadian Tower em Toronto, Hakuri Murakami instalasse sua casa no sopé do monte Fuji, ou então Paulo Coelho mantivesse uma mansão na Urca, à sombra do Pão de Açúcar. “Acordo todo dia com a Renascença”, diz Eco, referindo-se à enorme fortificação do século XV. O castelo deve também abrir os portões pela manhã com uma sensação parecida, pois diante dele vive o intelectual e o romancista mais famoso da Itália.
Um dos andares da residência de Eco é dedicado ao escritório e à biblioteca. São quatro salas repletas de livros, divididas por temas e por autores em ordem alfabética. A sala em que trabalha abriga aquilo que ele chama de “ala das ciências banidas”, como ocultismo, sociedades secretas, mesmerismo, esoterismo, magia e bruxaria. Ali, em um cômodo pequeno, estão as fontes principais dos romances de sucesso de Eco: O nome da rosa (1980), O pêndulo de Foucault (1988), A ilha do dia anterior (1994), Baudolino (2000), A misteriosa chama da rainha Loana (2004) e O cemitério de Praga.
Publicado em 2010 e lançado com sucesso no Brasil em 2011, o livro provocou polêmica por tratar de forma humorística de um assunto sério: o surgimento do antissemitismo na Europa. Por motivos diversos, protestaram a igreja católica e o rabino de Roma: aquela porque Eco satirizava os jesuítas (“são maçons de saia”, diz o personagem principal, o odioso tabelião Simone Simonini), este porque as teorias conspiratórias forjadas no século XIX – como o Protocolo dos sábios do Sião – poderiam gerar uma onda de ódio aos judeus.
Desde o início da carreira, em 1962, como autor do ensaio estético Obra aberta, Eco gosta de provocar esse tipo de reação. Mesmo aos 80 anos, que completa em 5 de janeiro, parece não perder o gosto pelo barulho. De muito bom humor, ele conversou com Época durante duas horas sobre a idade, o gênero que inventou – o suspense erudito –, a decadência europeia e seu assunto mais constante nos últimos anos: a morte do livro. É de pasmar, mas o maior inimigo da leitura pelo computador está revendo suas posições – e até gostando de ler livros... pelo iPad que comprou durante sua última turnê americana. Para ler a entrevista a Umberto Eco clique aqui

A esquerda mundial após 2011


Por qualquer ângulo, 2011 foi um bom ano para a esquerda mundial – seja qual for a abrangência da definição de cada um sobre a esquerda mundial. A razão fundamental foi a condição econômica negativa, que atinge a maior parte do mundo. O desemprego, que era alto, cresceu ainda mais. A maioria dos governos enfrentou grandes dívidas e receita reduzida. A resposta deles foi tentar impor medidas de austeridade contra suas populações, ao mesmo tempo em que tentavam proteger os bancos.
O resultado disso foi uma revolta global daquilo que o movimento Occuppy Wall Street chama de “os 99%”. Os alvos eram a excessiva polarização da riqueza, os governos corruptos, e a natureza essencialmente antidemocrática desses governos — tenham eles sistemas multipartidários ou não.
O Occuppy Wall Street, a Primavera Árabe e os Indignados não alcançaram tudo o que esperavam. Mas sim conseguiram alterar o discurso mundial, levando-o para longe dos mantras ideológicos do neoliberalismo — para temas como desigualdade, injustiça e descolonização. Pela primeira vez em muito tempo, pessoas comuns passaram a discutir a natureza do sistema no qual vivem. Já não o vêem como natural ou inevitável…
A questão para a esquerda mundial, agora, é como avançar e converter o sucesso do discurso inicial em transformação política.
Para ler o texto completo de Immanuel Wallerstein clique aqui

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

“Há muitas coisas que ainda gostava de fazer” - Entrevista a Gonçalo M. Tavares


Os fragmentos que a bem dizer não são versos e que compõem “Uma Viagem à Índia” surpreenderam os leitores de Gonçalo M. Tavares. Já se sabia dos livros negros de onde transborda pessimismo; e do bairro imaginário que, título após título, o escritor vai habitando com os autores que lhe são caros. O novo livro é quase inqualificável e é um risco a que parece que, como dizia Pedro Mexia, só Gonçalo M. Tavares podia permitir-se. O resultado está à vista e mereceu a distinção da Associação Portuguesa de Escritores.
Em entrevista, o autor fala desta epopeia imaginária e do anti-herói Bloom (que, como Vasco da Gama, parte de Lisboa), da experiência da viagem e, ao fim e ao cabo, daquilo que o alimenta: as palavras, a escrita e a vontade de fazer um livro ainda mais consistente a seguir.
Leia a entrevista a Gonçalo M. Tavares aqui

  © Blogger template 'Solitude' by Ourblogtemplates.com 2008

Back to TOP