sábado, 26 de setembro de 2026

"Bonsai econômico" - Henrique Morrone


 

Bonsai econômico



Dizem que o país precisa crescer.


Desde que seja para um lado.


Para quê mexer na mesa inclinada, se ela já facilita o jogo?


Um conhece a declividade.


O outro acredita na neutralidade das regras.


Outros, mais zelosos, falam em crescer com responsabilidade.


Há ainda os que preferem algo mais modesto: crescer pouco, mas crescer agarrado nas bordas do passado.


Cultivando a economia como quem cuida de um bonsai.


Amputamos excessos. Refreamos impulsos. Disciplinamos os galhos que se rebelam.


Nada escapa.


Só a desigualdade, que escorre — feito chorume — nutrindo galhos e exigindo mais poda.


Há quem veja nisso um ideal.


O sonho — bem passado, alinhado, bem contido.


O bonsai não é pequeno por natureza.


Ele foi sistematicamente reprimido.


Suas raízes, dilaceradas.


Seu horizonte, encarcerado no vaso.


E ainda assim, admiramos.


Como se fosse natural.


Chamamos de estabilidade o que é privação.


No bonsai econômico, nada cresce o suficiente para romper o vaso.
Não faltam sementes.


Falta espaço.


Discutimos os galhos, evitamos o vaso.


E o vaso permanece intocado — foi embutido.


E, como todo embuste, poderia ser diferente.


No país do bonsai, misturamos limite com paisagem.


Expansão passa por excesso.


E a poda, inevitável.


Porque o problema nunca foi o excesso dos galhos.


Foi o tamanho do recipiente.



Henrique Morrone

0 comentários:

  © Blogger template 'Solitude' by Ourblogtemplates.com 2008

Back to TOP