terça-feira, 11 de dezembro de 2012

CIÊNCIA & JORNALISMO: O mundo assombrado pelos demônios

O temor provocado por um alardeado fim do mundo, no próximo dia 21 de dezembro (solstício de verão no hemisfério sul), talvez seja a evidência mais clara da impotência da ciência em sensibilizar a sociedade humana para um olhar além da miséria filosófica e do sofrimento dispensável. Ao menos para parcelas significativas da população mundial.
Na verdade, não se trata da impotência apenas da ciência, mas também do jornalismo, enquanto possibilidade (de participar) da construção de uma cidadania contemporânea, no sentido da convivência crítica com fatos que vão de navegações que extrapolam o Sistema Solar, passando por paradoxos na mecânica quântica (emaranhamento quântico e relatividade restrita, por exemplo) e conquistas surpreendentes na genética, entre outros campos do conhecimento.
Ao que tudo indica, estamos vivenciando uma experiência de retorno de conteúdos arcaicos, típicos da era pré-científica, quando os demônios tinham o inteiro controle da situação e, de tempos em tempos, castigavam os humanos com relatos e previsões os mais horrendos em que se podia pensar.
Porque isso está ocorrendo agora, mais uma vez, é um fato que procede da complexa dinâmica da máquina do mundo. De imediato, no entanto, pode-se dizer que, até às vésperas da publicação da gravitação universal por Isaac Newton (1686), a igreja católica obtinha ganhos com essa mesma atuação terrorista.
Antes de Newton, com frequência, quando aparecia um cometa no céu, os padres badalavam os sinos de suas paróquias e trombeteavam o “fim do mundo”. Os homens ricos, com a consciência pesada pela maneira como haviam acumulado suas fortunas, corriam então às igrejas e faziam suas doações, como forma de aplacar os pecados e assim livrar-se das chamas eternas que crepitavam no inferno, renovadas pelo ardor da Inquisição. O mundo estava para acabar, mas, ainda assim, as ofertas eram aceitas. Os pobres, como os ricos, também gemiam seus pavores entre os (poucos) dentes, mas, açoitados a cada dia pela miséria, quase mais nada tinham a perder.
Pela altura em que Newton publicou sua gravitação universal, um estilo literário, as “narrativas fantásticas” corriam o mundo. Eram o espelho da mentalidade da época. Nesses registros estava incluído o conceito de um mundo em forma de bacia, de que navegantes mais ousados − aventurando-se no que os portugueses chamaram de “mar-oceano” − podiam cair, precipitando-se no caos e na degeneração.
Nesses relatos era comum a descrição de criaturas com corpos humanos e cabeça de animais, como cães, touros e serpentes. As descrições geográficas das terras que abrigavam esses seres eram as mais exóticas e inconsistentes, mas, ainda assim, tomadas como um contínuo da realidade.
Foram os portugueses os primeiros a refutar esse obscurantismo febril que marcou a longa noite da Idade Média, a partir do século 4, com o apagamento da cultura greco-romana, até um conjunto de datas irregulares espalhadas pelo Ocidente. Pedro Nunes (1502-1578), D. João de Castro (1500?-1548) e Garcia de Orta (1501-1568) foram alguns dos responsáveis por essa glória portuguesa, sem reconhecimento difundido além de Portugal, e praticamente ignorada no Brasil.
Para ler o texto completo de Ulisses Capozzoli clique aqui

1 comentários:

Thamy Souza 12 de dezembro de 2012 12:50  

É mesmo, depois de ler este texto fiquei meio abestada como as pessoas em pleno ano de 2012, depois de tantos avanços da ciência, temem o fim do mundo por causa de um calendário...
No fundo, não acredito que isto seja por descaso a ciência não, mas sim porque não conseguimos, ainda, responder as grandes questões como , de onde viemos, de onde surgiu o mundo, se foi criação, quem o criou, e quem criou quem o criou..etc..
Temos algumas teorias, mas nada certo, acho que no fundo esta é a grande brecha para existirem todas as religiões, crenças e pessoas que acreditem que o mundo pode acabar assim, de uma hora para outra.. mesmo a gente experimentando todos os dias, um após outro, o sol se levantar e se deitar... como somos frágeis...

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