domingo, 26 de dezembro de 2021

"Não há vagas" - Ferreira Gullar

 




Não há vagas



 

O preço do feijão


não cabe no poema. O preço


do arroz


não cabe no poema.


Não cabem no poema o gás


a luz o telefone


a sonegação


do leite


da carne


do açúcar


do pão



O funcionário público


não cabe no poema


com seu salário de fome


sua vida fechada


em arquivos.


Como não cabe no poema


o operário


que esmerila seu dia de aço


e carvão


nas oficinas escuras



- porque o poema, senhores,


está fechado:


“não há vagas”



Só cabe no poema


o homem sem estômago


a mulher de nuvens


a fruta sem preço



O poema, senhores,


não fede


nem cheira



 

 

Ferreira Gullar




Divulgando o mais recente livro do autor do blog Aqui    

0 comentários:

  © Blogger template 'Solitude' by Ourblogtemplates.com 2008

Back to TOP