“Intelectuais Apolíticos” - Otto René Castillo
Intelectuais Apolíticos
Um dia,
os intelectuais
apolíticos
de meu país
serão interrogados
pelo homem
comum
de nosso povo.
Perguntarão a eles
sobre o que fizeram
quando
a pátria se apagava
lentamente,
como uma fogueira doce,
pequena e solitária.
Não serão interrogados
sobre suas roupas,
nem sobre suas longas
siestas
depois do lanche da tarde,
tampouco sobre seus estéreis
combates com o nada,
nem sobre sua ontológica
maneira
de chegar às moedas.
Não serão interrogados
sobre a mitologia grega,
nem sobre o asco
que sentiram de si,
quando alguém, ao fundo,
se dispunha a morrer covardemente.
Nada será perguntado
sobre suas justificativas
absurdas,
crescidas na sombra
de uma mentira rotunda.
II
Esse dia verão
os homens comuns.
Que nunca couberam
nos livros e versos
dos intelectuais apolíticos,
mas que chegavam todos os dias
a lhes deixar o leite e o pão,
os ovos e as tortilhas,
os que costuravam suas roupas,
os que conduziam os carros,
os que cuidavam de seus cachorros e jardins,
e trabalhavam para eles,
e perguntarão,
“O que você fez quando os pobres
sofriam, e se queimavam com eles,
gravemente, a ternura e a vida?”
III
Intelectuais apolíticos
de meu doce país,
não poderão responder nada.
Abutres de silêncio devorarão
suas entranhas.
Roerão suas almas
sua própria miséria.
E ficarão calados,
com vergonha de si mesmos…
Otto René Castillo* (1934-1967)
*Poeta revolucionário guatemalteco escreveu este poema no início de 1965, dois anos antes de ser assassinado pelos militares guatemaltecos.
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