sábado, 21 de fevereiro de 2026

Reflexões sobre o tempo presente

 
































Julián Fuks - Viver por viver, não mais para contar: um não ao predomínio do trabalho


"A vida não é a que cada um viveu, e sim a que cada um recorda e como recorda para contá-la." Durante muitos anos, até pouco tempo atrás, acho que vivi de acordo com essa máxima. São as palavras com que Gabriel García Márquez abre a sua autobiografia, palavras das quais poucos escritores costumam discordar. A vida, para um escritor dedicado, pode ser uma sequência de experiências menos ou mais valorosas, cujo valor se estima pelo efeito posterior que produzem quando narradas. Não interessa, então, se um escritor se anima, se alegra, se comove, se apaixona. Interessa se será capaz de provocar um efeito semelhante, fazer daquilo matéria suficiente para animar, alegrar, comover, apaixonar.

Já não concordo com García Márquez, não concordo com o escritor que fui durante tantos anos. Talvez não seja dedicado o bastante, talvez me falte algo da ambição de jovem, mas não creio mais que a finalidade última da vida estaria em sua conversão em prosa, menos ainda para o consumo de alguns estranhos. Escrever pode ser uma forma privilegiada de entender uma experiência própria, de fixá-la num sentido particular, mas não é a única e nem mesmo a melhor. Recordar com palavras é sempre um pouco distorcer, corromper, deturpar.

Recordar em si é já realizar essa deturpação, criar na mente um sucedâneo impreciso da experiência que acabará por tomar o seu lugar — mas paciência, recordar é da ordem do inevitável. Escrever é que oferece uma escolha: escrever ou não escrever, substituir ou não o real por seu simulacro tão falho.

Há nisso tudo uma discussão sobre o papel preponderante da razão, de um movimento mental ordenado. Se a vida não é a que cada um viveu, e sim a que cada um conta a si mesmo e aos outros, toda uma série de emoções e sensações inomináveis se perde de maneira irreparável. O corpo não contaria com outra memória senão aquela da consciência e da linguagem, o corpo seria uma máquina de ideias e nada mais. É uma visão utilitária da vida; só o que nela vale é o que pode se tornar relato. Ora, mais verdadeiro deve ser o contrário: talvez haja mais intensidade naquelas vivências cuja finalidade se encerra em si mesma. Como, digamos, o canto, a dança, o sexo, todos habitualmente tão inenarráveis, tão mal narrados.

Sinto que não estou falando aqui só de literatura, ou da vida desinteressante dos escritores. Um escritor não só vive sua experiência própria, procura também observar a dos demais. E ao meu redor vejo por toda parte pessoas cada vez menos dispostas a abdicar dos prazeres ditos menores, cada vez mais entregues ao riso, à alegria, à fruição, ao exercício cotidiano de uma felicidade (sim, é possível que eu ainda esteja marcado pelo Carnaval). O desejo de registro e de relato, ao menos agora, tem prescindido em grande medida da reflexão e da palavra. Por ora, os que me cercam parecem esquecidos de suas ambições vagas, de seus anseios sérios demais, em vez disso se dedicando ao encontro de seus prazeres reais numa partilha com os próximos.

Não há de ser casual que a luta maior do momento presente, em termos políticos e sociais, seja por uma vida menos devotada ao trabalho. Houve um tempo em que lamentaríamos o hedonismo, ou o descompromisso das novas gerações, sua carência de ambições. 

Agora não, os tempos convulsivos já nos fizeram entender outra coisa, que não há nenhum ganho em conceber a existência como uma sequência de obrigações, de deveres, de martírios diários. Que há algo bem mais fundamental do que as metas que estabelecemos para nós mesmos, em momentos sisudos que apagam toda leveza possível, toda beleza. E que, afinal, só com isso, só com a restituição dessa leveza, dessa beleza, desse prazer, temos alguma chance de encontrar o sentido perdido do trabalho, o sentido extraviado da escrita. Quem sabe assim cheguemos a alcançar algo digno de recordar.

Fonte
  (21/02/2026)

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