sexta-feira, 23 de agosto de 2019

"Poema temperamental" - Joaquim Pessoa

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Poema temperamental

Ó caralho! Ó caralho!
Quem abateu estas aves?
Quem é que sabe? quem é
que inventou a pasmaceira?
Que puta de bebedeira
é esta que em nós se vem
já desde o ventre da mãe
e que tem a nossa idade?
Ó caralho! Ó caralho!
Isto de a gente sorrir
com os dentes cariados
esta coisa de gritar
sem ter nada na goela
faz-nos abrir a janela.
Faz doer a solidão.
Faz das tripas coração.
Ó caralho! Ó caralho!
Porque não vem o diabo
dizer que somos um povo
de heroicos analfabetos?
Na cama fazemos netos
porque os filhos não são nossos
são produtos do acaso
desde o sangue até aos ossos.
Ó caralho! Ó caralho!
Um homem mede-se aos palmos
se não há outra medida
e põe-se o dedo na ferida
se o dedo lá for preciso.
Não temos que ter juízo
o que é urgente é ser louco
quer se seja muito ou pouco.
Ó caralho! Ó caralho!
Porque é que os poemas dizem
o que os poetas não querem?
Porque é que as palavras ferem
como facas aguçadas
cravadas por toda a parte?
Porque é que se diz que a arte
é para certas camadas?
Ó caralho! Ó caralho!
Estes fatos por medida
que vestimos ao domingo
tiram-nos dias de vida
fazem guardar-nos segredos
e tornam-nos tão cruéis
que para comprar anéis
vendemos os próprios dedos.
Ó caralho! Ó caralho!
Falta mudar tanta coisa.
Falta mudar isto tudo!
Ser-se cego surdo e mudo
entre gente sem cabeça
não é desgraça completa.
É como ser-se poeta
sem que a poesia aconteça.
Ó caralho! Ó caralho!
Nunca ninguém diz o nome
do silêncio que nos mata
e andamos mortos de fome
(mesmo os que trazem gravata)
com um nó junto à garganta.
O mal é que a gente canta
quando nos põem a pata.
Ó caralho! Ó caralho!
O melhor era fingir
que não é nada connosco.
O melhor era dizer
que nunca mais há remédio
para a sífilis. Para o tédio.
Para o ócio e a pobreza.
Era melhor. Com certeza.
Ó caralho! Ó caralho!
Tudo são contas antigas.
Tudo são palavras velhas.
Faz-se um telhado sem telhas
para que chova lá dentro
e afogam-se os moribundos
dentro do guarda-vestidos
entre vaias e gemidos.
Ó caralho! Ó caralho!
Há gente que não faz nada
nem sequer coçar as pernas.
Há gente que não se importa
de viver feita aos bocados
com uma alma tão morta
que os mortos berram à porta
dos vivos que estão calados.
Ó caralho! Ó caralho!
Já é tempo de aprender
quanto custa a vida inteira
a comer e a beber
e a viver dessa maneira.
Já é tempo de dizer
que a fome tem outro nome.
Que viver já é ter fome.
Ó caralho! Ó caralho!

Ó caralho!

Joaquim Pessoa

DOSSIÊ: AMBIENTE & AMAZÔNIA e outros temas do Brasil


Devastação e fogo são retrocesso à colônia. Há alternativa: articular desmatamento zero com projeto que substitui soja, mineração e gado por economia do século XXI, baseada em biodiversidade e saberes — inclusive os originários. 
Para ler o texto "Amazônia do Conhecimento ou da Ignorância?" de Ricardo Abramovay clique aqui

Leia "Na TV, Bolsonaro se contradiz sobre desinformação e 'tolerância zero' com crimes ambientais" de Chico Marés e Nathália Afonso clicando aqui

Leia "Não há diplomacia possível com governo que destrói Amazônia, diz cientista político francês Samuel Leré" clicando aqui

Leia "Amazônia na mira: história, desmatamento e geopolítica" clicando aqui

Leia "O fogo chegou" de Lúcio Flávio Pinto clicando aqui

Leia "Queimadas mostram que desmatamento está aumentando" Entrevista com Carlos Nobre clicando aqui

Leia "Brasil 2019: O que está acontecendo, na verdade, não está acontecendo" de Grasielle Castro clicando aqui

Leia "Protestos multiplicam-se: como participar" de Rôney Rodrigues clicando aqui

Leia "Cinedebate: a crise ambiental brasileira em três filmes" de Gabriela Leite clicando aqui



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Assista à íntegra da entrevista de Lula aos jornalistas Mauro Lopes, Paulo Moreira Leite e Pepe Escobar clicando aqui


Leia "Bolsonaro e a barbárie contra o público" de Diogo Tourino de Sousa clicando aqui

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Leia "A tristeza infinita dos incels: um retrato da juventude em crise no Brasil" de Marie Declercq clicando aqui

Leia "Laurentino Gomes: A escravidão é latente, só está escondida sob o tapete" clicando aqui

"A capacidade de pensar de forma autônoma, ou simplesmente pensar, está em perigo"

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Contra a nova alienação representada pela manipulação dos dados por algoritmos colocados a serviço das grandes corporações e Estados, o economista Pierre Dockès chama a uma “insurreição cívica”. 
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Leia "Paremos de eleger nossos ladrões para que nossos filhos não morram de fome" de Juan Verástegui Vásquez clicando aqui

Leia "A revolução do Emprego Garantidode Robert Skidelsky clicando aqui

Leia "O "velho capitalismo" e seu fôlego para dominação do tempo e do espaçode Luiz Gonzaga Belluzzi clicando aqui

Leia "O mundo islâmico está cada vez mais secularizado" Entrevista com Olivier Roy clicando aqui

Leia "Um inimigo de Hitler de 106 anosde Domingo Marchena clicando aqui

Leia "O cineasta em sua faunade José Geraldo Couto clicando aqui

2CELLOS - "We Found Love"

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Para assistir à interpretação de "We Found Love" pelos 2CELLOS clique no vídeo aqui

East London em 100 anos de dança

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Este vídeo é simplesmente incrível! Talvez nunca tenha havido uma exibição tão estupenda de moda, dança e edição de filmes, como mostrado neste vídeo. Um casal dança através de um século de mudanças na música, moda e dança. Não se sabe como eles conseguiram manter o equilíbrio com todas essas 'alterações'! 
Para assistir a esta exibição clique aqui



Amazon e Microsoft estão em lista de "alta preocupação" por seu papel no desenvolvimento de armas autônomas

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De acordo com um relatório de uma ONG, as duas empresas fazem parte dos gigantes da tecnologia que poderão levar a uma descomunal corrida armamentista no setor da inteligência artificial
Para ler o texto completo clique aqui

Estórias de pastores: duas perspectivas angolanas sobre a identidade nacional e as outras


A descoberta de um pequeno conto da década de 1970 abriu-me a possibilidade de estabelecer uma comparação com outro escritor angolano da mesma geração, Pepetela, cuja obra analisara em detalhe para a minha tese de doutoramento (Santos 2011). A coincidência de ambos terem escrito, com um intervalo de quase 30 anos, sobre o mesmo tema, facilitou um exercício comparativo cujo objetivo é salientar a originalidade e pertinência das ideias de Ruy Duarte de Carvalho (RDC) a respeito das identidades coletivas parcelares.
Para ler o texto completo de Alexandra Santos clique aqui


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