sábado, 4 de julho de 2020

"Teus olhos são meus livros..." - Machado de Assis

Cuidados Exclusivos para a Pele Negra - Site de Beleza e Moda

Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?

Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?
Machado de Assis

Até leio autoras mulheres, mas não compartilho o conhecimento delas ou com elas


Com certa frequência, ao participar de debates que pautam o feminismo, aparece o seguinte questionamento: qual é o lugar dos homens na luta feminista? Tal questão gera alvoroço e o fio condutor da controvérsia, na maioria das vezes, encontra-se no conceito de representatividade ou no que tange ao lugar de fala.
A resposta pode ser simples: as mulheres precisam ser protagonistas da luta. Já os homens, devem usar seus espaços de privilégios para visibilizar atitudes machistas, sexistas e rever seus privilégios. Afinal, nós mulheres não queremos lutar para sempre contra o machismo e temos como horizonte o fim das assimetrias de gênero. Essa luta, porém, não deve andar só, pois, pelo menos sob a perspectiva que compartilho, não há possibilidade de emancipar mulheres em uma sociedade racista e capitalista. 
Para ler o texto de Camila Carolina H. Galetti clique aqui

Leia "O ódio ilusório à República: o mal do político narcisista" de Jorge Alemán clicando aqui

Leia "Florestan Fernandes e os "negros": provocação para um debate" de  Manolo clicando aqui

Leia "César Aira: desdenhosa ignorância da literatura do Brasil " de  clicando aqui

Leia "Quando o real ultrapassa a imaginação" clicando aqui

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'O coronavírus é um professor cruel porque ensina matando', diz o sociólogo Boaventura de Sousa Santos

Descrito como o 'sociólogo da antiglobalização', Boaventura de Sousa Santos é um dos principais impulsionadores do Fórum Social Mundial

Considerado uma das grandes referências entre pensadores de esquerda, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos acredita que o novo coronavírus é um grande professor, porém cruel. Em seu novo ensaio, A cruel pedagogia do vírus, ele afirma que a pandemia de covid-19 é a forma com que nosso planeta está dizendo que basta. A lição será aprendida? Para ele, é uma grande incógnita. Santos é diretor emérito do centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, em Portugal, e pesquisador da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos. Descrito como o “sociólogo da antiglobalização”, é um dos principais impulsionadores do Fórum Social Mundial. Em seu novo trabalho, ele reflete sobre todas as lições trazidas pelo vírus, que jogou luz também sobre as desigualdades de nossa sociedade e de nosso modelo de desenvolvimento, que é amplamente criticado por Santos. O vírus é capaz de infectar qualquer um, mas prevaleceu entre os mais vulneráveis, os mais pobres. “30% da população mundial sofre com falta de água. Como vão lavar as mãos? A pouca água que têm é necessária para comer e beber.”
Confira os principais trechos da entrevista clicando aqui

Leia "Não estamos entrando em recuperação econômica e o próximo colapso financeiro está chegando" de Grace Blakeley clicando aqui

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Leia "Índia: sociedade, política e pandemia" de Shalini Randeria clicando aqui

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Leia "Depois da pandemia: um novo modo de vida?" de Liszt Vieira clicando aqui

Leia "A esquerda branca precisa abraçar a liderança negra" de Barbara Ransby clicando aqui

Leia "A ideologia e a verdade" de Nora Merlin clicando aqui

Leia "A luta de classes da COVID" de Yanes Varoufakis clicando aqui

Leia "Por que um tribunal de Londres decidiu o futuro das reservas de ouro da Venezuela?" de Gabriela Kuenhle clicando aqui

Leia "Mephisto" de Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy clicando aqui

Roger Hodgson: "A Soapbox Opera"

A Soapbox Opera - Roger Hodgson (Supertramp) Writer and Composer ...

Para assistir à interpretação de "A Soapbox Opera" na voz de Roger Hodgson clique aqui



Europa em 1989, América em 2020 e a morte da causa perdida

Manifestantes levantam os punhos no ar na estátua de Robert E. Lee
Os manifestantes pedem a remoção de uma estátua de Robert E. Lee em Richmond, Virgínia, em junho

Em novembro de 1989, quando o Muro de Berlim de repente começou a desmoronar e depois cair , grande parte do mundo assistia com admiração. Seria verdade que o comunismo estava prestes a entrar em colapso? Por setenta anos, havia sido um sistema, uma ideologia, que ordenou grandes áreas do globo. Agora, toda uma visão da história - uma visão destinada a maximizar a liberdade, mas que havia se transformado ao longo do tempo em tirania - parecia estar saindo do palco.
Muitas pessoas ainda possuem, como eu, pequenos pedaços de concreto do Muro de Berlim. E muitos de nós sentimos alguma admiração ao ver, durante as últimas semanas, monumentos confederados na América, igualmente reduzidos a pedaços, relíquias do colapso, depois de cento e cinquenta e cinco anos, dos vestígios públicos da tradição Causa Perdida . O verão de 2020, como o outono de 1989, pode marcar a morte de uma visão específica da história. Nesse caso, levou uma longa, longa noite - para pedir emprestado a Robbie Robertson e a Band - para derrubar o velho Dixie.
Não devemos celebrar demais, pois os monumentos tombam e os antigos blocos de escravos são removidos. A história não terminou quando a União Soviética se dissolveu, e não terminará agora, mesmo que um movimento vibrante varra uma nova era de direitos civis para a América. 
Para ler o texto de David W. Blight clique aqui

VÍDEOS - Alexandre Marini: "O que é fascismo e neofascismo?" & "O que é racismo estrutural?"

O que é neofascismo? - YouTube

Para assistir à fala "O que é fascismo e neofascismo?" de Alexandre Marini clique no vídeo (3:22) aqui

O que é racismo estrutural? - YouTube

Para assistir à fala "O que é racismo estrutural?" de Alexandre Marini clique no vídeo (3:06) aqui

Entrevista Josina Machel: “Senti que a justiça criminal de Moçambique me tinha posto uma faca no estômago”

Josina Machel: “Senti que a justiça criminal de Moçambique me ...

Cinco anos depois de ter sido agredida violentamente pelo então companheiro, a filha de Samora Machel e enteada de Nelson Mandela está abalada com a Justiça do seu país, depois de o Tribunal Superior de Recurso ter anulado a condenação do homem que a deixou parcialmente cega. “É uma grande traição para as mulheres (…) que depositam a sua confiança no sistema judicial”, desabafa.

Antonio Rodrigues - Público, 4 de Julho de 2020
Foto
"A minha vida mudou e nunca mais voltará a ser a mesma", diz Josina Machel, que perdeu a vista direita devido à agressão DR
Tem nome de guerreira – em homenagem à primeira mulher do pai, guerrilheira da Frelimo, morta em 1971 – e o seu reerguer depois do episódio de violência doméstica de que foi vítima em Outubro de 2015, na consequência do qual perdeu a vista direita, mostra que também é lutadora. Denunciou o seu caso, foi até às últimas consequências e conseguiu que o seu agressor, o ex-companheiro Rufino Licuco, fosse condenado, em Fevereiro de 2017, a três anos e quatro meses de prisão e a pagar-lhe uma indemnização superior a 200 milhões de meticais (2,5 milhões de euros).
Josina Machel, filha do primeiro Presidente de Moçambique, Samora Machel, e enteada do primeiro Presidente negro da África do Sul, Nelson Mandela, tem-se dedicado, desde então, à causa da luta contra a violência de gênero. Criou uma organização não-governamental para ajudar mulheres que passaram pelo mesmo, o Movimento Kuhluka, contou a sua história, transformou-a num exemplo de que nenhuma mulher está livre de ser alvo de violência, porque se aconteceu a alguém como ela, que cresceu num ambiente seguro e privilegiado, com uma mãe defensora dos direitos das mulheres e que estudou nas melhores escolas (tem um mestrado na London School of Economics), pode acontecer a todas, ricas ou pobres, letradas ou iletradas.
Quase cinco anos depois de um episódio que lhe deixou marcas para sempre, o Tribunal Superior de Recurso decidiu, no mês passado, anular a sentença de primeira instância por considerar que não havendo testemunhas além do agressor e da agredida não se podia condenar o arguido. Licuco foi assim absolvido.
O que sentiu ao saber da decisão do Tribunal Superior de Recurso?
Obviamente senti que o sistema de justiça criminal de Moçambique me tinha posto uma faca no estômago. Eu decidi falar. De certa maneira até parece inconsciente da minha parte, decidi contar a verdade imediatamente após a agressão. Fui a instituições públicas, estive no hospital, durante a minha estadia falei com agentes da polícia e com agentes de saúde, a quem expliquei o que me tinha acontecido. Depois disso, optei por levar o assunto à Justiça. Tenho provas incontestáveis que levaram à primeira sentença. É uma grande decepção. É uma grande traição que o sistema judicial moçambicano tenha optado por ignorar factos que são claros, factos que estão provados na primeira instância.
A maneira como olho para isto, como mulher moçambicana, como mulher africana, como mulher do mundo, é que muitas de nós fazemos o grande esforço de nos expormos, mostrar evidências irrefutáveis e, depois, as instituições escolhem tomar decisões com deficiências flagrantes, em desafio à legislação aprovada no país. Não faz sentido hoje, num Estado de direito, dizer que um caso tem de ser anulado porque a violência aconteceu entre quatro paredes e só estavam a acusadora e o acusado. Ora, essa é exatamente a característica da violência doméstica, os abusadores não abusam na presença de testemunhas. É uma grande traição para as mulheres que quebram o sigilo, que passam por cima da vergonha e do estigma e depositam a sua confiança no sistema judicial e este lhes responde dizendo que a prova não é suficiente porque não há testemunhas. De que é que precisamos mais? Precisamos de estar mortas para o sistema ter em conta as nossas experiências?
Ficou surpreendida com a decisão?
Absolutamente. Poderia entender se a sentença tivesse sido modificada, se a compensação tivesse sido reduzida, mas absolver? Perante provas tão claras? É um insulto à luta das mulheres contra a violência.
Poderá fazer regredir o que se tinha conseguido até em Moçambique, no âmbito da luta contra a violência de gênero?
Não tenho dúvidas sobre isso, esta decisão vai fazer com que as mulheres sintam que a Justiça não é fonte de refúgio e de proteção e vão preferir ficar caladas. E que os abusadores sintam que a Justiça está do seu lado e podem continuar a perpetrar a violência. E começará a ter impacto no tipo de sentenças que vão começar a aparecer a partir de agora em Moçambique.
Esta decisão é reflexo de que ainda existe em Moçambique uma cultura machista muito forte?
A cultura machista existe no mundo inteiro. Nós estamos num sistema patriarcal e isto é exatamente consequência daquilo a que os inglesas chamam backlash, uma grande força que tenta mostrar, através destes métodos retrógrados ainda fortes, que resistem a este processo de mudança e de reconhecimento dos direitos iguais entre homens e mulheres.
O que vai fazer agora? Vai recorrer para o Tribunal Supremo?
Uma coisa é o que a Josina Machel como pessoa conta fazer, outra coisa é a Josina Machel como ativista. As implicações desta sentença vão além do indivíduo. Estamos num processo de consulta e de debate para ver se ainda vale a pena levar o caso a instituições que, a nível pessoal, já têm o sangue do meu pai nas mãos e que agora optaram, também, por ter o meu sangue nas suas mãos. Será que vale a pena? Mas se vale é pelas outras mulheres e não por Josina Machel.
Tem receio que o seu agressor, agora absolvido, possa voltar para se vingar?
Espero que a decência não lhe dê coragem para fazer isso. Mas se acontecer, o que é que posso fazer? Seria mais uma agressão, não faria uma diferença muito grande. Depois de toda a intimidação que fez para eu parar o caso, seria o mesmo tipo de intimidação dos últimos cinco anos. Espero que não o faça, mas não me surpreenderia.
A sua vida mudou desde o caso…
… completamente. Sou meio cega, deixei de ver de uma vista e não sou capaz de conduzir, tenho de ser levada. Não posso trabalhar no computador como fazia, o meu ativismo é diferente. A minha vida social também mudou, porque sou dependente das pessoas para me movimentar, principalmente ao fim do dia. A minha vida mudou e nunca mais voltará a ser a mesma. Há pessoas que optam por considerar este tipo de perda insignificante, mesmo quando há mulheres que emocionalmente nunca mais serão as mesmas e a sua participação na sociedade e na vida econômica acaba reduzida por causa do efeito psicológico da violência doméstica. Eu sofro o efeito psicológico, mas também físico e isso tem impactos muito grandes na qualidade de vida que agora tenho. Com esta sentença tudo isso foi ignorado e negado pelo Estado moçambicano.
Desde 2015, tem feito questão de sublinhar que a violência de gênero não conhece limites de classes, nem de privilégios, que mesmo a filha de um Presidente e enteada de outro e filha de uma ativista pelos direitos das mulheres (Graça Machel) pode ser vítima de violência doméstica. É importante sublinhar que não há nenhuma mulher a salvo deste tipo de violência?
Completamente. A ironia do destino quis que uma pessoa como eu passasse por este tipo de agressão, pelo mesmo tipo de humilhação que qualquer mulher passa, perante os agentes de polícia, perante os agentes de saúde, perante os agentes do sistema de justiça criminal; e pela condenação que geralmente vem da nossa sociedade, uma sociedade que ainda não passou pela transformação de mentalidade que ajude as sobreviventes de violência doméstica. Esta batalha é de todos nós, não tem a ver com educação, com classe, com idade, todas estamos sob um sistema de subjugação, um sistema de guerra contra as mulheres. Todos os dias, da mesma maneira que um exército, também nós, mulheres, somos agredidas, violadas, mutiladas, mortas e o mundo continua como se nada estivesse a acontecer. Um Estado que vai para a guerra, prepara infra-estruturas para lidar com os veteranos de guerra, mas os nossos Estados optam por ignorar as vítimas desta realidade.
Todos os dias, da mesma maneira que um exército, também nós, mulheres, somos agredidas, violadas, mutiladas, mortas e o mundo continua como se nada estivesse a acontecer. Um Estado que vai para a guerra, prepara infra-estruturas para lidar com os veteranos de guerra, mas os nossos Estados optam por ignorar as vítimas desta realidade
A lei contra a violência doméstica em Moçambique fez dez anos em 2019, a sentença do Tribunal Superior de Recurso em relação ao seu caso mostra que a existência dessa lei não reflete uma verdadeira mudança na sociedade moçambicana?
A lei da violência doméstica foi vista como um grande sinal e o nosso governo foi encarado como inovador por abraçar esta causa. Mas se, dez anos mais tarde, o mesmo Estado de direito consegue agir desta maneira, é porque aquilo foi apenas um papel aprovado para receber congratulações nesse mundo fora. A minha sentença é o mesmo tipo de sentença que outras mulheres têm recebido ao longo de todos estes anos, é mais um exemplo de que há uma grande diferença entre a existência da lei e a sua aplicação.
Criou em 2015 o Movimento Kuhluka para ajudar mulheres vítimas de violência de gênero. O que quer dizer kuhluka [lê-se kussuka]?
Kuhluka significa o renascer e foi escolhido porque é simbólico do processo que acontece com todas as vítimas e sobreviventes de violência. Nós costumamos usar a metáfora das árvores: depois de grandes incêndios, de grandes cheias, a tendência é olhar para as árvores e dizer que dali já não vai nascer nada, morreu. É como as mulheres vítimas de violência, é costume olhar para elas e dizer que foram amputadas para o resto da vida; que morreram. E passados meses, anos, olhamos para as mesmas árvores e começam a mostrar um verde novo. É esse o simbolismo que usamos: depois de tudo o que nos aconteceu, voltamos a crescer, renascemos.
Sente-se renascida?
Decididamente que renasci. Esta sentença deve ser uma tentativa para cortar as novas flores e o verde que já nasceu, mas, felizmente, as raízes são fundas, fertilizadas pelas várias irmãs em Moçambique e no mundo que passam por isso e as suas histórias e o ver o quanto renascem, regenerou-me.
O que faz o movimento?
Primeiro, fazemos advocacia pelos direitos e serviços que têm de ser disponibilizados pelo Estado, pelo sector privado, pela sociedade, para promover a cura e a superação de mulheres que passaram por situações de violência. Também defendemos juntos daqueles a que se chamam em inglês os custodians of culture [guardiões da cultura] para que entendam que os direitos dos homens e das mulheres são iguais e que os assuntos de violência de gênero não podem ser olhados como se fossem de segunda categoria. Trabalhamos com as Nações Unidas e com várias outras instituições internacionais para promover o direito de vítimas e sobreviventes de violência. Em termos de atividades, distribuímos kits para assistência a vítimas de violência nas primeiras horas depois do abuso, temos também o que chamamos círculos de suporte que são grupos de mulheres onde elas podem partilhar a sua experiência, podem aprender novas ferramentas para lidar com essa viagem que é ser sobrevivente de violência. A tendência da sociedade é pensar “isto já passou, já passaram uns meses, ela está bem, a vida andou para a frente”: não! As mágoas, as sequelas continuam durante muito tempo e precisam de ser lidadas de maneira sistemática e é isso que estamos a fazer. E advogamos igualmente pela criação de espaços seguros nas nossas comunidades, aquilo a que chamamos os abrigos, para que as mulheres tenham assistência médica, policial, psicológica, etc. para que possam sair, semanas depois, com capacidade para enfrentar a vida de maneira diferente. O trabalho da Kuhluka é advogar e prestar serviços a sobreviventes de violência de gênero porque esse foi o vazio que eu e várias outras mulheres identificamos ao começar esta viagem de sobreviventes de violência.

Vídeo (00:24) - Josina Machel: O abuso tem de parar  

 

 

Vídeo (17:42) -  Josina Machel: Violência masculina  contra as mulheres: a próxima fronteira da humanidade 


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